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Ópera Invisível

por Rubens Leme

O Invisible Opera of Tibet é um projeto paralelo de Fabio Golfetti, do Violeta de Outono, desde meados de 1980.

Nesse último CD - UFO Planante - a banda - Fabio (guitarra e voz); Gabriel Souza (baixo, e atual integrante do Violeta) e Fred Barley (bateria), desfilam cinco temas.

Esse é o primeiro tema do álbum e, embora em uma versão bem menor (no CD são mais de 27 minutos), percebe-se o talento e criatividade do trio.

Surfadelica - Search And Not Destroy

por Rubens Leme

Search And Not Destroy é o novo trabalho do trio paulistano Surfadelica, que mais uma vez, mistura, em doses generosas e com extremo bom gosto, surf music e psicodelia.

O segundo CD do trio formado por Carlos Nishimiya (guitarra), Carlos Rodrigues (baixo) e Fabio McCoy (bateria), possui 11 novas composições, todas de Nishimiya, que aumentou seu arsenal de riffs, mostrando que atravessa um ótimo momento.

Mesmo ocupado em outros projetos - Continental Combo e o Kid Vinil Xperience - o Surfadelica é a "menina dos olhos" do guitarrista e onde pode dar mais vazão ao seu imenso conhecimento musical e estilístico. Não é à toa que ele também assinou a produção do petardo.

O disco abre com "Space Age Surfin' Love Song", onde Nishimiya já começa a mostrar suas armas, com guitarras sobrepostas e uma bela melodia, meio triste.

"Surfer's Paradise" abre com uma sólida combinação baixo-bateria. A guitarra de Nishimiya vai construindo uma paisagem que cairia bem em um filme de David Lynch: escura e esparsa.

"Destination Unknown" dá uma boa ideia da coesão do trio, com uma guitarra sendo acompanhada de maneira precisa pela cozinha, ao mesmo tempo em que sola um pouco mais agressivamente do que as duas faixas iniciais.

"Lurking Behind The Asteroids" é uma canção mais lenta, talvez a mais "comportada" do disco, com mais raízes psicodélicas, como se tivesse sido gravada na San Francisco de 1967.

Mais ousados do que o disco anterior, apresentam um suíte, em três partes. Minha favorita é "Landscape I (Ice Cold Weather)", com um belo trabalho ao violão e uma etérea guitarra que leva o ouvinte a uma bela e delicada manhã fria. Delicada e sutil.

Outro destaque é a faixa que encerra o trabalho, "Morning Glass", que me fez lembrar uma cena de algum filme de Quentin Tarantino. Divertida e grudenta.

Gravado totalmente no estúdio Quadrophenia entre janeiro e agosto de 2010, teve o líder do Continental Combo, Sandro Garcia, no comando da parte técnica, masterização e apoio geral.

O disco pode ser adquirido através do site da banda ou escrevendo para contato@surfadelica.com.

Para quem gosta de rock instrumental e acha que há poucas opções interessantes no Brasil, o Surfadelica será uma ótima pedida.

Faixas

01. Space Age Surfin' Love Song
02. Surfer's Paradise
03. Destination Unknown
04. Lurking Behind The Asteroids
05. Trying To Get Back Home
06. The Voyage Suite: For Tomorrow
07. The Voyage Suite: Landscape I (Ice Cold Weather)
08. The Voyage Suite: Wavelength
09. The Limits Of Time And Space
10. Midnight Lightning
11. Morning Glass

Giuseppe Frippi - Desert Wind

por Rubens Leme

Discos de rock instrumental no Brasil são raros.

É um mercado difícil, que exige um público mais paciente, atento e que procura uma sonoridsade distante dos modismos vingentes. Mas há quem arrisque e consiga ótimos resultados.

Editado pelo selo inglês Voiceprint, Desert Wind é o primeiro trabalho solo do guitarrista Giuseppe Frippi, ex-membro dos Voluntários da Pátria, Akira S e as Garotas que Erraram, Alvos Móveis e do CO2.

O CD nasceu da necessidade de Frippi trilhar um caminho próprio, sem estar preso a um grupo.

Compondo desde 2007, Frippi entrou em estúido em 2009, com ajuda de grandes músicos, entre eles João Parahyba, membro do Trio Mocotó e que já emprestou seu talento para Toquinho, Ivan Lins, Cesar Camargo Mariano, Jorge Benjor, e do excepcional baixista Celio Barros.

Frippi resolveu misturar antigas influências - Robert Fripp, Bill Frisell, John Scofield, Jeff Beck, Frank Zappa, John McLaughlin, Jimi Hendrix, Santana, John Coltrane, Ravi Shankar, Don Cherry, etc - e a paixão por música oriental, psicodelismo, ambient music, progressivo e ritmos brasileiros.

"Após gravarmos em 2009, os temas foram mixados por Janja Gomes (filho do João Parahyba) e, em 2010 o trabalho entrou na fila da masterização do Omid Burgin (tinha ouvido alguns trabalhos anteriores dele e fiquei muito impressionado. Queria que fosse ele a masterizar). A master foi concluída em agosto de 2010. E só saiu esse ano", explica o músico.

Frippi explica que "queria inverter o processo de criação ao que estava acostumado em minhas parcerias e participações anteriores, que era o de definir o conceito do trabalho antes de começar a por a mão na massa. Neste novo contexto, os temas saíram espontaneamente sem um script definido e o resultado final foi muito satisfatório."

Ao se tornar artista 'solo' - embora não tenha feito tudo sozinho - Frippi pode mostrar todo seu talento e encontrar sua própria "voz".

Apesar de investir em ritmos brasileiros, curiosamente, nenhum título é em português.

"Como ele foi lançado pela Voiceprint, um selo internacional, me incentivou a não me ater a um limite geográfico ou lingüístico para dar nome às faixas (e, afinal, a presença do Brasil está muito viva na música)."

O disco abre com a bela "La Joie De Vivre", com a guitarra de Frippi viajando na percussão de Parahyba. Tema delicado e sutil. O título foi tirado de um livro de Emile Zola e também de um quadro do pintor espanhol Pablo Picasso.

O segundo tema, "La Milonga del Duende", é nas palavras do próprio músico, um tango "meio torto", "já que é em 7/4, mas tem aquele clima soturno portenho".

A faixa título é outra que merece uma atenção especial, e mostra (outro) belo trabalho de Parahyba e seu entrosamento perfeito com Celio Barros. A dupla, aliás, é um dos grandes trunfos do disco.

Raga Nº2 foi o primeiro tema a ser gravado e uma das mais que mais agradou à Frippi e que deverá fazer o mesmo com o ouvinte. O CD ainda traz ótimos climas em "Savana Party", "Happiness is gonna come" e "The fall Blues".

Porém, como todo disco de música instrumental, há uma clara limitação na mídia. A maneira mais fácil de comprá-lo é através do site da Voiceprint.

Aos fãs, Frippi avisa que já está trabalhando em um segundo CD, novamente com a dupla Parahyba e Barros.

é um dos bons lançamentos de 2011 e que merece ser ouvido com atenção.

Ficha técnica

Faixas


01. La Joie De Vivre
02. La Milonga Del Duende
03. Happiness Is Gonna Come
04. Desert Wind
05. Fall Blues
06. Savana Party
07. …Ed É Subito Sera
08. A La Guerre Comme A La Guerre
09. A Little Song 4 U
10. Raga No. 2
11. Eppur Si Muove
12. Senza Titolo

Músicos

Giuseppe Frippi: guitarras, violões live sampling e programação
João Parahyba: bateria, percussão e programação
Celio Barros: baixo elétrico, upright, contrabaixo acústico

Participações

Janja Gomes: Percussão e samples
Giovanni Santhiago Lenti: Percussão adicional
Roberto Araujo: oboé & french horn
Ubaldo Versolato: flauta, sax barítono
Gabriel Levy: accordeão

Sep. 6th, 2011

publicado originalmente no site Mofo

por Rubens Leme

Quando a loja Baratos Afins lançou um selo próprio, muitas bandas tiveram a oportunidade de lançar discos que as grandes gravadoras não aceitavam por não entenderem a proposta sonora, ou por pura ignorância. Uma delas foi o Smack, talvez a banda mais inovadora e "difícil" do selo. O quarteto - e depois trio - lançou dois discos nos anos 80, até se reagruparem, no Século XXI e lançarem um EP, com cinco músicas. O Smack é outra banda que merece ser conhecida e ouvida.


(Sandra Coutinho, Thomas Pappon e Pamps, na época do lançamento de Noite e Dia)

E para falar da banda usei do mesmo expediente que usei com os Voluntários: entrevistei
três integrantes, especificamente, o letrista, cantor e guitarrista Pamps, a baixista Sandra Coutinho e o baterista Thomas  Pappon.

(Pamps: crédito:
Ruy Mendes)

Sérgio Pamplona, ou Pamps, como é conhecido, já tinha uma
muita experiência antes de formar o Smack.

Nascido em São Paulo, Pamps cresceu ouvindo o que seus pais tocavam em casa: Tommy Dorsey, Louis Armstrong, Gene Krupa, Elvis Presley, Frank Sinatra, Bing Crosby, Paul Anka, Ella Fitzgerald, João Gilberto, Elizeth Cardoso, Angela Maria.

Mais velho, resolveu dar os primeiros passos como músico: "participei de um grupo que acompanhava uma companhia de dança chamada CQD. Tocava baixo. Depois, a convite do Arrigo Barnabé formei um grupo pra acompanhar a Eliete Negreiros: Sandra Coutinho no teclado, Jean Trad na guitarra, Maurício Zidoy na bateria, eu no baixo (agora já fretless, pois precisei acompanhar a sonoridade que o falecido Tavinho Fialho imprimiu na gravação do disco). Depois fui chamado pelo Itamar Assumpção pra tocar baixo no Isca de Polícia."

Pamps queria montar sua própria banda e a ideia amadureceu após um encontro com Sandra Coutinho e Edgard Scandurra: "Eu acompanhava
de perto as Mercenárias. Era meio que vizinho da Sandra. Assim, conheci o Edgard. Eu tinha umas músicas em andamento; boa parte das que constam do Ao Vivo no Mosh. Um dia a Sandra e o Edgard sugeriram que eu mostrasse os temas.
Começamos a desenvolver os arranjos, com o Edgard fazendo, por vezes, a bateria. Então, num belo dia, apareceu o Thomas na casa da Sandra e o levamos até a minha casa pra mostrar o som. Ele fechou todas e saiu maravilhado com o que tava rolando. Saiu dos Voluntários e se dedicou ao Smack. Não havia proposta alguma."

Thomas realmente havia se entusiasmado com o grupo: "fui o último a entrar no grupo, não sei se ele já existia antes, creio que não. Sei que os outros três, o Pamps, a Sandra e o Edgard ficaram um bom tempo testando outros bateristas, sem sucesso. Numa tarde de domingo, acho em 1983, eu estava de bobeira
na casa da Ana, guitarrista das Mercenárias, e os três estavam lá. Eles me convidaram para fazer um som - acho que era um teste. Deu super certo, foi uma química mágica. As músicas estavam praticamente prontas, só que sem bateria. Imediatamente me convidaram para entrar na banda."

(Foto da contra-capa do primeiro disco, Ao Vivo no Mosh. Crédito: Renato Mascaro)

O entusiamo de Pappon foi tão grande e realmente deixou o Voluntários, como disse Pamps: "quando entrei no Smack só tocava com os Voluntários (não avia ainda montado o Fellini). Nunca foi um grande problema tocar
nas duas bandas. Não faziamos muitos shows na época. Dava para ensaiar com os dois grupos, mesmo porque a gente ensaiava na casa do Miguel (no caso dos Voluntarios), e na casa do Pamps (no caso do Smack). Só depois de maio de 84, quando pintou o Fellini, é que a coisa começou a complicar para mim. Eu tinha emprego (sempre tive, a música era hobby) e aí realmente não dava mais."

Sandra achava fácil conciliar as Mercenárias e o Smack: "era tranquilo. As Mercenárias não tinham tanta demanda de shows."

As influências básicas do Smack eram variadas: iam dos pós-punk do Gang of Four, Talking Heads, Devo, The Jam e passavam por Jimi Hendrix, Luis Melodia, Jards Macalé, Mutantes, etc...

Pamps se lembra que a sintonia entre os quatro músicos era enorme: "ninguém dizia ao outro o que fazer. Simplesmente rolava."

(O Smack toca no projeto 'Rota 86', em um Centro Cultural Vergueiro, absolutamente lotado. Crédito: Luiz Stavalo)

Já que a química era imensa por que não gravar um disco "ao vivo no estúdio"? Assim, o quarteto resolveu levar a ideia adiante.

Segundo Pamps, "sempre gostei da ideia de gravar ao vivo em estúdio (via Talking Heads). Como a grana era curta, decidimos fazer uma sessão de várias horas passando o repertório todo várias vezes para depois escolher os melhores takes. Chamamos alguns amigos pra participarem da gravação (aplausos, assobios,
u-hus, etc..). O Edgard e eu fizemos uma outra sessão à parte para recolocar alguns vocais, pois no dia da gravação estávamos gripados..."


Pappon dá mais detalhes: "o disco foi gravado ao vivo por razões de grana mesmo. A gente queria gravar num dia apenas, começamos às 9 da manhã (lembro que foi duro pro Pamps acordar cedo). Tocamos o repertório ao vivo duas vezes no estúdio e depois escolhemos a melhor versão de cada música para mixar. Achamos uma boa ideia convidar alguns amigos para dar mais 'clima' pra coisa toda. Devia ter umas 10 ou 15 pessoas. Lembro que o Nasi, a Bia Abramo
e a Neusinha estavam lá."
"Gravar o LP foi fácil e divertido",
relembra Sandra.

Thomas, no entanto, não ficou muito satisfeito com o resultado obtido: "tenho uma fita de ensaio, gravada toscamente, que é um desbunde. O Ao Vivo no Mosh não faz justiça a esse som, foi mal produzido, apenas dá uma ideia do som que a gente fazia."

Lançado em 1985, pela Baratos Afins, Ao Vivo no Mosh, se tornou um clássico independente brasileiro.

Lado A

1. Fora Daqui
2. Fora Daqui II
3. Onde Li
4. Clone
5. Desespero Juvenil
6. N. 4

Lado B

1. 16 Horas e Pouco
2. Limite Eternidade
3. Faça Umas Compras
4. Chance De Fuga
5. Mediocridade Afinal

(Pamps, Sandra e Thomas - agachado. Crédito: Vitché)

O disco ganhou elogios da crítica brasileira e também da internacional e alguns shows promocionais, na capital paulista, no Lira Paulistana, no Cais, na Tiffon, além de um show em Rio Claro, dividindo a bilheteria com as Mercenárias e os Ratos de Porão.

O problema é que Edgard Scandurra começava a ganhar destaque nacional com o Ira!, como guitarrista e compositor e logo precisou desistir do grupo, abrindo mão até de outros projetos.

"Edgard vivia tendo compromissos com o Ira!, Gang 90, Ultraje, KGB, etc... Ele vivia de música e shos e apostou as fichas no Ira!. Continuamos como trio, e a coisa até que deu certo. Lembro de duas noites no Lira Paulistana, como trio, que foram muito boas, talvez os melhores shows do Smack", relata Pappon, que também
dividia seu tempo com o Fellini, enquanto Sandra também era líder das Mercernárias. Apenas Pamps era "exclusivo"
do Smack.

Se, ao vivo, a banda estava coesa e forte, a inevitável saída de Edgard deixou uma lacuna imensa. Isso levou o som do grupo para uma nova direção: mais pesado, denso, bem diferente do álbum de estréia. Pamps, Pappon e Sandra, porém, seguiam dispostos a encarar
o novo desafio.

"Decidimos tocar em frente. O ano era outro, a vida também era mais densa, mais pesada. Creio que isso se traduziu no clima das minhas composições. Acho que 'Just Reality' é a mais densa. Muito lenta, quase pra trás. A letra do Thomas ajudou bastante. É difícil tocar naquele andamento...", se lembra Pamps.

Assim, nascia o segundo disco do grupo, Noite e Dia, com produção de Luiz Carlos Calanca, gravado entre os meses de março e abril de 1986.

Ao contrário do LP anterior, Noite e Dia foi inteiramente financiado pela Baratos Afins, com uma melhor estrutura.

"Esse foi o primeiro disco do qual participei em que as gravações foram bancadas pela gravadora, no caso, a Baratos Afins. Gravavamos à noite no Vice-Versa, em Pinheiros. O Edgard participou como convidado especial, em quatro músicas", explica Pappon.

Noite e Dia foi editado em 1986, com as seguintes músicas:

Lado 1

01. Abertura
02. Pequena Dissonância
03. Não Enlouqueça
04. Cavalos
05. Rádio Smack

Lado 2

01. Sete Nomes
02. Desafinado
03. Just Reality
04. Noite e Dia

O sucesso comercial, no entanto, não aparecia e problemas pessoais e a falta de divulgação culminaram com o fim do Smack:

"O Smack foi definhando. Não consigo lembrar por que paramos de ensaiar Acho que foi por falta de tempo e procrastinação do Pamps", confessa Pappon. Para Pamps, a "química havia se esgotado".

Vale ressaltar que a Baratos Afins lançou uma edição 2 em 1, com os dois LPs do grupo, em CD.

Após o fim, a banda até fez uma apresentação mais para matar as saudades, em 1996, no Aeroanta, em São Paulo.

Thomas havia se mudado para a Inglaterra, mas Edgard, Sandra e Pamps se encontravam muitas vezes e às vezes, tocavam juntos.

Em 2005, os três resolveram se reunir para algumas apresentações, com Pitchu Ferraz, na bateria.

A tal "química" voltou, a ponto de lançarem um novo trabalho, o EP Smack 3, com cinco músicas, em 2008, pela gravadora Midsummer Madness, para a alegria de Pamps: "o grupo foi reativado em 2008 para a gravação do EP."

Após a gravação, a banda fez alguns shows, com a baterista Pitchu Ferraz substituindo Thomas Pappon: "a Pitchu substitui o Pappon de uma maneira diversa e surpreendente!", garante o cantor.

Sandra adorou trabalhar novamente com os rapazes, embora confesse que tenha feito pouco: "são composições do Pamps com Edgard e uma tem letra do Arnaldo. Eles eram vizinhos e amiguinhos! Se
cruzavam e foram criando o novo repertório. Eu vim e fiz a linha do baixo. Logo, foi o momento deles!"

Gravado nos Studio Paris, Cabeça de Estopa e masterizado por Walter Lima, no Mosh Studios, Smack 3 traz as seguintes composições, todas inéditas:

01. "Se você" (Edgard Scandurra / letra: Arnaldo Antunes)
02. "Qu’est ce que tu pense" (música e letra: Pamps)
03. " Excomungado" (música e letra: Pamps)
04. "Tempo tempo tempo" (música e letra: Edgard
Scandurra)
05. " Verlan" (música e letra: Pamps)

Nada desanima Pamps. Apesar de tudo, ele acha que vale a pena insistir, apesar da falta de uma divulgação decente. Pamps acha que o problema não é a falta de interesse do público, mas um respeito maior das casas noturnas com os músicos: "o interesse pelo rock e suas derivações permanece. O problema são os locais. Casas noturnas onde se ganha por bilheteria, mas só se entra em cena lá pelas duas da matina. Não é fácil!"

O ânimo é tamanho a ponto de sonhar em lançar outro EP de músicas inéditas. Pois que venha um novo trabalho!

Discografia

Ao Vivo no Mosh (1985)
Noite e Dia (1986)
Smack 3(EP, 2008)

Voluntários da Pátria

publicado originalmente no site Mofo

por Rubens Leme

No começo da década de 80, a loja Baratos Afins deu uma grande força às bandas independentes ao montar o selo de mesmo nome. Se as bandas não venderam muito, ao menos foram importantes para abrir espaços para muita gente talentosa. Uma dessas bandas - que teve apenas um LP gravado - foi o Voluntários.  Liderado pelo guitarrista Miguel Barella, o Voluntários teve em sua formação Guilherme Isnard (depois vocalista do Zero), Thomas Pappon (Fellini e Smack), Nasi (Nazi, à época) e Ricardo Gaspa (ambos, futuros integrantes do Ira!). Com uma sonoridade mais definida e mais trabalhada que os demais grupos do selo, o Voluntários da Pátria deixou um belo registro e que merece ser resgatado.


(Primeira formação dos Voluntários: da esquerda para a direita: MinhoK, Guilherme Isnard, Miguel Barella e Thomas Pappon. Faltou o baixista Maurício, futuro integrante do Ultraje a Rigor. Crédito da foto: Luís Crispino.)

Para contar a história do grupo, entrevistei três integrantes da banda: os guitarristas Miguel Barella, Giuseppe Frippi e o baterista Thomas Pappon. Eles falaram da vida, das gravações e das diversas formações do grupo. As fotos que ilustram a matéria foram todas retiradas do site sacimusic de Miguel Barella, com os devidos créditos.

Após a explosões do punk e da new wave no mundo, que mostrou que qualquer jovem poderia formar uma banda, muitos sonhavam em formar uma banda. E como qualquer outro grupo, nasceu os Voluntários da Pátria.

O grupo nasceu em 1982, após um encontro entre o guitarrista Miguel Barella (foto, em instantâneo de Jac Leirner) e o baterista Thomas Pappon. Miguel, paulistano da capital, tinha crescido como qualquer garoto da sua idade, ouvindo Beatles, Rolling Stones, Jovem Guarda e foi, aos poucos, se aproximando mais dos progressivos ingleses e o jazz rock feito por Miles Davis, Mahavishnu, Chick Corea e pelo grupos do selo ECM.

Miguel Barella já havia tocado no Agentss, de Kodiak Bachine, que durou pouco, mas deixou um interessante legado: "O Agentss foi o projeto de 3 cabeças bastante diferentes: Kodiak, Eduardo (Amarante, futuro integrante do Zero) e eu. Deixamos um legado pequeno, mas consistente: 2 singles e 5 shows. Fo uma época interessante em São Paulo. Tínhamos poucos lugares para tocar, mas pessoas muito antenadas. Até hoje recebo e-mails de foram pedindo informações, autorzação para remixes etc..."

Assim, após o fim do Agentss, nascia o Voluntários. Ao longo dos anos, a banda apresentou três formações:

Formação 1

Guilherme Isnard (vocal)
Miguel Barella (guitarra)
MinhoK (guitarra)
Maurício (baixo)
Thomas Pappon (bateria)

Formação 2

Nazi (vocal)
Miguel Barella (guitarra)
Giuseppe Lenti (guitarra)
Ricardo Gaspa (baixo)
Thomas Pappon (bateria)

Formação 3

Paulo H (vocal)
Miguel Barella (guitarra)
Giuseppe Lenti (guitarra)
AkiraS (baixo)
EdsonX (bateria)

(Segunda formação dos Voluntários. Em pé; Miguel Barella e Thomas Pappon. Sentados; Nazi, Ricardo Gaspa e Giuseppe Frippi. Crédito da foto: J. R Duran.)

O começo foi difícil...

Segundo Thomas Pappon, a banda surgiu meio que por "acidente": "fundei os Voluntários com o Miguel Barella, que me ligou do nada em algum momento no inicio de 1982 perguntando se eu queria tocar na Gang 90. Ele namorava uma menina que tinha um irmão, com quem eu tocava numa banda. Essa namorada tinha mencionado para ele que o irmão tocava com um cara que 'gostava de new wave', e por isso ele me ligou. Topei, fomos ensaiar com a Gang 90, mas não durou muito, fui dispensado poucas semanas depois (aparentemente o Julio Barroso queria a volta do Gigante Brazil). Mas fiz amizade com o Miguel e ficamos com o plano de fazer algo juntos. No dia 7 de setembro de 1982 (a data acabou infleunciando a escolha do nome), fizemos um ensaio. O Miguel levou o Jacky (R.H. Jackson, baixo) e eu levei o Minho K (Celso Pucci, guitarra). Foi um barato, assim nasceu a banda.

Barella se lembra bem do começo: "uma jam com o Jackie o Thomas e eu serviu para despertar as afinidades musicais entre... o Thomas e eu. O Thomas foi para a Alemanha e ficou por isso mesmo. Antes do Thomas ir para a Alemanha ensaiamos com a Gang 90. Nessa época a Gang ficou reduzidíssima (sairam todos os músicos) e o Julio pediu que eu apresentasse gente nova. Os ensaios eram no apartamento da May East, na Praça da República, com a Sandra no piano Fender, o Thomas na bateria eu na guitarra e a Claudia Niemayer no baixo. O Julio ficava observando e soltava uns comentários do tipo: 'toca como o Arto; encarna um James White', etc.Lembro que o Julio ficou indignado com o Thomas quando ele falou XTC em vez de EKSTICI. Por enquanto, ainda não tinha Voluntários da Pátria nem embrião da banda. Toquei com Gang 90 no Victória Club com a Sandra no piano, Skowa no baixo e Victor Leite na batera. Nessa noite o Ira abriu para a Gang. A Sandra e eu continuamos a conversar sobre as possibilidades de uma banda etc...e o ponto em comum era "Thomas na batera", mas ele estava na Alemanha tentando uma bolsa para estudar cinema.

Não sei bem como, mas um dia a Sandra diz que encontrou o Thomas na rua e um dia ele, mais MinhoK, estavam fazendo um som no porão. O Jackie estava lá com o stick mas logo depois voltou para Nova Iorque. O MinhoK apresentou o riff que acabou virando "Cadê o Socialismo".

Barella discorda apenas da origem do nome: "um dia o MinhoK estava divagando sobre os nomes e disse "hoje passei pela Rua Voluntários da Pátria". Na sequência falei que era um bom nome para o grupo. presentamos para o Thomas e ele também gostou. Uma sugestão anterior, dada pelo Thomas, era Gdansk (copiado de Warsaw, primeiro nome do Joy Division). Os primeiros tempos tiveram aquele típico entra-e-sai de membros: "a Sandra e a Marcinha apareceram em vários ensaios mas a poesia teutônica das letras do Thomas inibia quem tinha que interpretá-las.A Sandra já falava em trocar o piano pelo baixo, eu queria dar uma chance, mas fui voto vencido. Finalmente apareceu o primeiro baixista: Rodrigo. O Thomas conhecia ele da USP e eu porque era irmão de uma antiga namorada. Ele, definitivamente, não falava o nosso dialeto. A referencia mais próxima era o Police que tocava no rádio. Mesmo assim insistimos um pouco. O próximo passo era conseguir um vocalista!

Sábado após o ensaio, o Thomas, MinhoK e eu marcamos encontro no Rose BomBom. Era a primeira fase do Rose, montado num lugar que foi a primeira loja de discos do gênero punk-new-wave que conheci em SP – fora as Galerias que eram mais genéricas. O dono da loja era um americano de nome Bob, amigo do Kodiak.

Lá pelas tantas encontramos o Antonio Bivar, que eu conhecia através do Julio Barroso e da Gang90, e começamos a conversar... numa  certa altura do papo alguém perguntou se ele gostaria de  cantar na nova banda que se chamava Voluntários da Pátria etc. O Bivar disse ser muito tímido para cantar, mas não descartou totalmente o convite.

Alguns dias depois recebi um telefonama da Paula Lemos dizendo que um amigo dela tinha encontrado a Monica Figueiredo (e provavelmente o Bivar) saindo do Rose. Papo vai, papo vem e a Paula disse que ia me ligar  um amigo dela que soube pela Monica Figueiredo que o Voluntários procurava um vocalista. O nome desse amigo era Guilherme Isnard." Pronto, o time estava completo: Isnard, Mauricio, Pappon, MinhoK e eu. Ensaios, ensaios, ensaios, faíscas. O ar ficava carregado com uma tensão evidente entre as aspirações do Guilherme e os objetivos da banda."

(Com Frippi - segurando o copo - nasce a segunda formação do grupo. Crédito da foto: Corina Crawford.)

MinhoK acabou saindo e Giuseppe Frippi acabou assumindo a outra guitarra. Italiano nascido em Alessandra, região do Piemonte, Giuseppe Lenti viveu em vários países. Seu pai era um executivo de uma multinacional e viveu em vários países.

Seu amor à música cresceu na Argentina:"foi onde dei meus primeiros passos na guitarra....A cena lá era fervilhante: muitas bandas de blues e Rock tocavam com frequência e vendo gente como Pappo, Cláudio Gabis (aqui tocou um certo tempo na banda do Nei Matogrosso logo depois da separação dos S&M), Luís Alberto Spinetta, Edelmiro Molinari acabei aprimorando meu conhecimento do instrumento (fora, obviamente, ouvir muito Hendrix e Santana, que eram os guitarristas 'internacionais' que eu mais curtia na época) .... Cheguei no Brasil em 74, com 16 anos."

Logo que chegou ao Brasil, conheceu Miguel: "eu tinha formado uma anda com um pessoal da minha escola que se apresentava nos festivais do Colégio Objetivo e o Miguel também chegou a tocar nesses eventos. Começamos a trocar idéias durante as passagens de som e acabamos ficando muito amigos. Inclusive porque acabei montando uma nova banda com músicos que ele me apresentou. Tempo depois ele me convidou a me unir aos Voluntários, já que o MinhoK (o outro guitarrista) tinha abandonado a banda... Sua grande paixão na guitarra, depois de Hendrix, era Robert Fripp, líder do King Crimson e acabou sendo conhecido como Frippi, com "i" no final. Para Pappon, a segunda era a mais consistente, tanto que gravou o único LP do grupo: "A primeira era com o Minho K, o Maurício (do Ultraje) no baixo e o Guilherme Isnard nos vocais. A outra com o Frippi, o Gaspa e o Nasi. Os nomes falam por si. A vantagem da segunda é que havia uma trama de guitarras mais definida e resolvida, o baixo era mais presente. Mas a grande diferença estava nos cantores. Dois estilos totalmente diferentes. De um lado, Brian Ferry e do outro - sei lá - Bono, no início de carreira. New Romantic x Clash. Hoje acho que o Isnard combinava melhor com o som e a imagem da banda. O Nasi estava por demais comprometido com o estilo de rebeldia adolescente do Ira!, o que não combinava muito com os Voluntários - nem com letras como 'O Homem Que Eu Amo'.

(Nazi em um show dos Voluntários. Crédito: Simone Lima)

Para Barella, a grande preocupação sonora da banda era trabalhar muito os arranjos; de forma interativa e fragmentada. "Tudo era dividido em partes que se juntavam como quebra cabeças. Um instrumental forte com resultado 'pop'" E para que essa concepção desse certo era vital a presença de Giuseppe Frippi, já que Barella admite que a primeira formação deixava um pouco a desejar.

"A primeira tinha o o Guilherme Isnard como vocalista e o MinhoK na outra guitarra; Thomas na bateria. Estavamos experimentando fórmulas. Não era muito boa ao vivo. A segunda foi a que gravou o LP, muito boa ao vivo. O Giuseppe e eu limpamos e consolidamos os arranjos das guitarras. O Thomas fez o mesmo com a bateria."

Os integrantes traziam diversas influências sonoras: The Cure, Gang of Four, Joy Division, League of Gentleman, Bill Nelson, XTC, King Crimson (especialmente o disco Discipline), além dos grupos de Nova York, como Television e Talking Heads.

O único disco editado do grupo, em 1984, saiu pelas Baratos Afins, com um longo e explicativo texto na contra-capa:

Grupo paulista formado em setembro de 1982. Realizou uma série de shows no ano de 1983. Tocou no Carbono 14, Rose Bom Bom, Lira Paulistana, Clash, Sesc Pompéia e Napalm (São Paulo), Noites Cariocas e Circo Voador (Rio de Janeiro).

Os Voluntários da Pátria não se apresentam ao vivo desde o início de 1984 (exceção feita ao show pelas Diretas-Já no Centro Cultural São Paulo). Durante este tempo, o grupo se dedicou à criação e aperfeiçoamento de músicas para a composição do grupo desde o seu surgimento. O objetivo inicial deste trabalho era o de registrar este material em um LP.

O papel do disco seria o de reproduzir fielmente os sons produzidos pelo grupo. A “fidelidade” em questão se refere ao som produzido ao vivo pelos Voluntários da Pátria, com os timbres de seus instrumentos equalizados de acordo com sua própria concepção estética. E o primeiro passo na tentativa de ir de encontro a este critério, foi de abandonar toda e qualquer perspectiva de lançar o LP por uma gravadora. Tinha-se descoberto que as gravadoras são incapazes de reconhecer e avaliar trabalhos que fogem dos padrões derivados de modismos passageiros. Não existe interesse nem iniciativa no sentido de se fazer um investimento a longo prazo, dirigido a um novo mercado, um mercado sólido sustentado por uma base real: a relação do consumidor criterioso com a música criteriosa, ou seja, uma relação onde os envolvidos partem para a discussão sobre determinado trabalho, situando-o em determinado contexto e resguardando ou não seu papel histórico de obra de arte. Tinha-se descoberto também, que os produtores de disco daqui são incapazes de situar qualquer tipo de música feita por jovens, em outro universo que não seja o das FMs e AMs comerciais. Isto revela sua desinformação: ignoram, entre outras coisa, o movimento punk, um movimento que praticamente alterou o comportamento do mercado fonográfico a nível mundial, além de ter influenciado toda uma geração de músicos e ouvintes. Os Voluntários da Pátria partiram então para a auto-produção, contando com a ajuda mecência de Luiz Carlos Calanca (Baratos Afins Records). O resultado é um LP com oito faixas instigantes, três das quais censuradas. São oito faixas onde prevalece a originaliade da integração letra/música/arranjo (os Mutantes faziam isso com classe). O LP, situado no marasmo da MPB, merece ser tratado seriamente. O disco foi gravado em julho/84 no Mosh Studio (16 canais), São Paulo, e lançado pelo selo Baratos Afins Discos.

Os Voluntários da Pátria são: Miguel Barella (guitarra, guitarra sintetizada), Giuseppe Frippii (guitarra, guitarra sintetizada), R. Gaspa (baixo), Nazi (vozes) e Thomas Pappon (bateria e vozes de fundo).

Ao ser editado em LP, trazia oito músicas:

Lado A

01. O Homem que eu Amo 02. Iô Iô 03. Um, Dois, Três, Eu te amo 04. Nazi Über Alles

Lado B

01. Marchas 02. Verdades e Mentiras 03. Cadê o Socialismo 04. Terra Devastada

O disco foi editado em CD, com sete faixas bônus, todas ao vivo:

09. Resistência Afegã 10. Iô Iô 11. Verdades e Mentiras 12. Um, Dois, Três, Eu te amo 13. Cadê o Socialismo 14. Fúria Brasileira 15. Marcha

O relançamento em CD, aliás, teve um show comemorativo, em janeiro de 1990 no Aeroanta. A formação para essa apresentação foi: Nazi, Miguel, Giuseppe, Gaspa e Kuki na bateria.

(Foto da banda em 1984 à época da gravação: da esquerda para a direita: Nazi, Thomas, Frippi, Barella e Gaspa. Crédito: Arquivo Pessoal de Miguel Barella.)

Segundo Miguel, "fomos para o melhor estúdio que podíamos pagar (o Mosh) e tudo correu sem surpresas. Os técnicos de som não tinham e menor idéia como conseguir a sonoridade que buscávamos, mas o resultado final ficou razoável."

Thomas conta que eles não tinham a menor expectativa em ver o disco lançado: "a gravação dos Voluntários foi em maio/junho de 84 Nós bancamos as gravações e o (Luiz) Calanca só decidiu lançar algumas semanas depois do trabalho pronto, ou seja, ninguém sabia (enquanto estávamos gravando) sequer se o disco seria lançado. Naquela época as bandas nao tinham firmeza nem dinheiro e peito para fazer tudo sozinho até o fim. Ainda bem que existia a Baratos Afins."

Frippi se lembra de uma história divertida: !o Nasi quebrou o queixo pouco antes de gravar as vozes num acidente de carro e tivemos que esperar que ficasse "bom" para completar o processo (que - evidentemente - ficou certo tempo em standby...)." No entanto, o Voluntários era uma banda sem grande preocupação comercial. "Era um veículo de expressão. Jamais pensamos em um grande selo", garante Barella. Frippi, no entanto, gostaria de ter tido uma chance "desde que este não quisesse modificar o conceito estético da banda.'" Por isso mesmo, as apresentações eram poucas: "Eu e o Giuseppe tinhamos empregos fixos, então os ensaios eram à noite ou no fim de semana. Shows só no fim de semana". Thomas recorda desses ensaios: "eram em Indianópolis, longe pacas da minha casa."

As dificuldades em se apresentar e sem grandes perspectivas foram a deixa para que Thomas saísse do grupo, afinal ele já integrava o Fellini e o Smack. "Foi exatamente por isso (estar em três grupos ao mesmo tempo) que acabei saindo da banda. Não dava para tocar em três bandas, tive que deixar uma delas. Optei por sair dos Voluntários. Os Voluntários eram algo novo na época. O pessoal gostava, os músicos eram bons. Mas a opção de sair não foi difícil de tomar. O Smack era uma superbanda, a gente fazia um puta som, rolava uma química muito forte ali. O Fellini eu amava, sabia que a gente tava fazendo algo muito legal."

(Última formação dos Voluntários: em pé, da esquerda para a direita: o vocalista Paulo Horácio, o baterista Edson X, o baixista Akira S e Giuseppe Frippi. Sentado: Miguel Barella. Crédito da foto: Ruy Mendes.)

O grupo ainda resistiu com uma terceira formação, mas durou apenas até fevereiro de 1986, quando fizeram o último show, para o programa Mixto Quente, da Rede Globo. Após isso, Miguel e Giuseppe fizeram dois discos sob o nome de Alvos Móveis - Alvos Móveis e Slow Link.

Barella nunca deixou a música de lado: "Nunca parei de tocar. Desde 2000 estou envolvido com improvisação. Tenho um trio que chama LCD e o duo Rohrer-Barella. Gravamos várias coisas que foram lançadas fora do Brasil, tocamos no LEM, em Barcelona. Em 2010, toquei em Shanghai com músicos chineses..." Barella se diz "apaixonado e completamente absorvido, no momento" por Kaki King.

Frippi recentemente lançou um disco solo pela Voiceprint, Desert Wind. Thomas passou pelo Fellini, com vários discos, Smack e The Gilbertos. Nazi e Gaspa ficaram famosos com o Ira! Akira S liderou o combo Akira S e as Garotas que Erraram. Guilherme Isnard foi vocalista do Zero.

As perspectivas de se reunirem são poucas e não animam muito, afinal anda muito difcíl tocar ao vivo. Ou nas próprias palavras de Pappon: "tudo continua tosco e dificil para bandas independentes. Mas hoje é pior, porque me parece que não há mais interesse em rock. Na época, pelo menos, todo mundo tinha curiosidade, e a imprensa e as radios davam uma puta força." Espero que tenham gostado. Um abraço e até a próxima coluna.

The Orchid Highway - The Orchid Highway

por Rubens Leme

postado originalmente no site Mofo

Seis anos atrás, recebi uma coletânea da Bongo Beat chamada Driving in the Rain 3 AM. Songs to get lost with, que resenhei e nela havia uma canção bacana chamada "Opiate" da banda canadense Orchid Highway.

Acabei fazendo uma entrevista com o líder, Rory McDonald e fiquei esperando que me mandassem o segundo CD do grupo - ou o primeiro, já que o anterior era um EP de quatro músicas (Fourplay) de 1997! - gravado em 2008.

O som da banda é diretamente tirado dos anos 60: Beatles, Floyd, fase Syd Barrett, Britpop, XTC, com ligações fortes com o Supergrass e Kula Shaker, tudo muito bem produzido, ótimos arranjos e melodias. O porquê de demorarem 11 anos para fazer um novo disco é um mistério.

A ajuda do produtor Steven Drake foi fudamental para dar corpo ao som. Para Rory, ele é um verdadeiro gênio e que merecia uma fama maior. Concordo.

O disco abre com "Sofa Surfer Girl" - há um vídeo no site oficial do grupo -, uma bela melodia pop. "Opiate", a que me cativou, anos antes, continua sendo ainda uma grande música ordenada por órgãos, guitarras e um vocal bacana.

Igualmente interessante é "Ballad in Plain E" (uma brincadeira, talvez, com "Ballad in Plain D", de Bob Dylan").

O Orchid Highway possui mais de 70 canções, segundo o próprio Rory, mas só 10 foram escolhidas para o disco. É torcer para que as outras 60 vejam a luz do dia urgentemente!

Faixas

1. Sofa Surfer Girl
2. Medicine Tree
3. Let's Stay In Instead
4. Next World
5. Ballad On Plain E
6. Opiate
7. Pop Tart Girl
8. Tea With Shandra
9. Time For A Change
10. Legion Hall

The Durutti Column - Four Factory Records

por Rubens Leme

postado originalmente no site Mofo


Ah, é tão fácil escrever sobre coisas que gostamos tanto e que se tornam clássicas. E é tão difícil não cairmos no lugar comum.

Essa caixa é um presente inimaginável para os fãs do Durutti Column (quantos somos?): uma edição com os 4 primeiros LPs - The Return of the Durutti Column, LC, Another Setting, Without Mercy - e ainda mais dois cds cheios de bônus.
Mas, para nosso desespero, apenas 1175 cópias foram feitos (será que nem eles sabem quantos somos?).

O jeito então é correr atrás rapidinho, antes que acabem. Mas também não precisa se desesperar porque após o grande sucesso, estão sendo providenciadas novas cópias.

Das 1175 cópias numeradas, tive a alegria de ser o dono do número 617. E digo isso com muita alegria, porque há anos tentava recuperar uma cópia em CD de LC - já que tenho o vinil nacional tanto dele quanto de Without Mercy.

E se dependesse da Factory - ou que restou dela - jamais seriam reeditados. Então como se deu a mágica?

O culpado de tudo isso é o filho do finado Tony Wilson, dono do selo, Oliver Wilson. Ele conta que após a morte do pai, foi até a casa dele para arrumar as coisas e encontrou um arsenal impressionante de fitas da gravadora, algumas desorganizadas. Intrigado, ficou se perguntando o quê faria com tudo aquilo. Como não encontrava uma resposta, resolveu dar tudo aos artistas originais.

Para Vini Reilly, foi um presente dos céus. Há anos, ele sonhava em editar alguns de seus primeiros LPs, mas não tinha idéia de onde e com quem estariam as fitas masters.

Ao receber, Vini e Bruce Mitchell começaram a ouvir e passaram a bola para um especialista em remasterização para lançamentos em CDs, Keir Stewart.

Segundo Vini, "Keir é o cara ideal para isso, com um talento impressionante e de uma técnica imaculada." E o legado não era pequeno, afinal os 4 primeiros LPs do Durutti são obras absolutamente personalistas da mente e da palheta de Vini, ainda que ele deteste particularmente dois discos: Another Setting e Without Mercy.

Porém, é necessário dar o devido desconto ao gênio em questão. O fato de não gostar dos discos não significa dizer que são ruins, muito pelo contrário.

O primeiro disco, The Return of the Durutti Column foi feito em um momento duro para Vini, já que os músicos de sua banda simplesmente o abandonaram. Reilly, que sempre sofreu de anorexia nervosa, caiu em profunda depressão e ficou jogado na cama e só saiu de lá graças aos esforços de Tony Wilson e de Alan Erasmus, que o levavam ao estúdio, junto com o produtor Martin Hannett.

Segundo o próprio, Martin o obrigou a gravar 13 peças musicais em dois dias e depois ele voltou para casa, para curtir sua tristeza. Vini estava tão doente que só chegou a ouvir as músicas após o disco ter sido prensado e mixado. A primeira capa era em papel aerado, mas depois Tony pediu que Vini escolhesse uma outra imagem, e Reilly optou por uma imagem do artista pós-impressionista Raoul Duffy.

O segundo disco, LC, nasceu de uma maneira inusitada. Vini tinha um gravador de eco e um gravador de rolo simples em sua casa e resolveu gravar algumas músicas de noite, enquanto sua mãe dormia ao lado.

Durante cinco horas gravou várias coisas e no dia seguinte, foi ao estúdio para colocar alguns vocais, alguns overdubs de piano e a bateria de Bruce Mitchell, que havia entrado na banda, meio que por acaso, semanas antes. No dia seguinte, o disco foi mixado. Em menos de 48 horas nascia um dos grandes clássicos dos anos 80. Uma faixa que merece destaque é "The Missing Boy", feita em homenagem ao amigo Ian Curtis.

Another Setting é o grande pesadelo, segundo Vini. A Factory pediu que ele trabalhasse com o engenheiro Chris Nagle e o resultado foi um "desastre". "O som da guitarra não ficou bom. Eu iria cantar mas acabei não cantando. Nada soava bem, o disco todo parecia murcho, sem vida e fiquei incrivelmente desapontado, pois estava em um ótimo estúdio com um ótimo equipamento. Até uma canção como 'The Beggar', que ao vivo fica quase um rock era totalmente sem vida. Fiquei muito desapontado e imagino que Tony também, pois ele investiu muito em mim, queria uma carreira pro Durutti."

Without Mercy é um dos discos favoritos dos fãs, mas não de Vini, que trabalhou nele por encomenda de Tony Wilson. "Tony um dia chegou para mim e disse 'olha eu deixo você fazer todos os discos que desejar da maneira que quiser, desde que você me dê um disco em específico'. Ele queria uma narrativa específica em cima de um poema de Keats 'La Belle Dame Sans Merci', que para Tony era a "canção pop' do poeta. Seria algo com orquestras e metais e muito interessante se eu tivesse algum interesse, mas não verdade eu não tinha intersse algum. Por isso, odiei cada segundo de Without Mercy, porque não pus meu coração no projeto. Eu não gostei do som da guitarra, para começo de conversa, e se a guitarra não responde bem, para mim nada funciona. E foi o que aconteceu nessa gravação."

Foram cinco dias de tortura para Vini, num disco com o próprio Tony produzindo e, apesar da beleza registrada, os dois sentiram que o projeto foi um fiasco. Ao menos, nessas gravações, ele conheceu um músico que viria a ser quase um membro fixo da banda, John Metcalfe.

Fosse apenas uma edição dos 4 CDs e a caixa já valeria muito. Mas ela traz muito mais. Para início de conversa, há uma linda caixa de presente na cor vinho. Ao abri-la, você verá um envelope lacrado e dentro desse envelope seis cds embalados separadamente; em quatro cores diferentes - copiando as cores da capa dos LPs originais - e mais dois cds embalados em invólucros da cor vinho, os extras.

Mas há mais: as quatro capas originais são reproduzidas em papel glossy, maior do que uma capa de CD. Além disso, há mais cinco folhas com entrevistas feitas com Vini, Bruce Mitchell, Oliver Wilson, John Metcalfe, Stewart Pickering (o produtor de LC), Keir Stewart e Tim Kellet, um dos músicos que mais colaborou com Vini ao longo dos anos.

Todo esse material foi editado com o extremo carinho pela pequena gravadora Kooky Records que fez 1175 cópias numeradas, que rapidamente se esgotou.

E como fazer para adquiri-la? Bem, será praticamente impossível que alguma loja no Brasil compre alguma cópia. O melhor que se tem a fazer é o seguinte: munido de um cartão de crédito internacional entre no site do selo, ou no site da banda.

Uma outra alternativa - e foi a que usei - é entrar no site da Amazon, mas a inglesa e não a norte-americana, e comprar uma peça usada. Isso porque eles têm várias em ótimo estado e com preços mais acessíveis, caso você não encontre em lugar algum.

No momento - noite do dia 22 de outubro - há 8 peças usadas com preços variando de 39,99 libras a 200 libras. A Amazon garante a qualidade e funciona como uma intermediária entre o vendedor e o comprador, sempre com ótimos resultados.

Com a baixa do dólar, minha caixa saiu muito em conta e paguei menos de 1/3 do que pediu a Cdpoint, por exemplo, e que ainda não dão 100% de garantia de conseguir um exemplar.

Apesar de serem maneiras elitistas para se conseguir o artefato, segue sendo a única para os fãs brasileiros. Você pode até pedir para uma loja tentar importar, mas saiba que vai pagar bem mais e ainda corre o risco deles não conseguirem.

Por isso, se for realmente fã da banda, corra atrás. É o lançamento do ano, sem a menor dúvida.


Durutti Column


por Rubens Leme

postado originalmente no site Mofo

 

Essa é uma coluna triste para mim. Apesar de amar LC e não tê-lo mais, fiquei muito triste quando consegui o email do baterista Bruce Mitchell e pedi a ele uma entrevista com Vini Reilly. Bruce disse que ele iria adorar falar com o Brasil. Como prova de minha boa fé mandei uns dois discos para ele via correio e jamais obtive as respostas. Passados quase 5 anos de espera, resolvi fazer a coluna mesmo sabendo que elas jamais chegarão a mim. Não importa. O que importa mesmo é a música de Vini e do Durutti Column. E que saudades de LC...

 


Em 1987, a gravadora Stiletto (por algum milagre desconhecido) resolveu editar alguns LPs que jamais alguém sonharia em ver no Brasil. Assim, pudemos ouvir Closer (Joy Division), Ignite the Seven Cannons (Felt), Kicking Against the Pricks (Nick Cave) e Durutti Column, com LC.

Todos os grupos eram mais falados do que ouvidos por aqui. É claro que Joy Division era a grande estrela do pacote; mas o que dizer do grupo de Vini Reilly?

LC foi um assombro. Não pela potência, mas sim pela delicadeza, pelos climas hipnotizantes e por ser um disco quase instrumental, já que a frágil voz de Vini é quase inaudível.

Em meio aos lançamentos variados, LC se tornou um companheiro por muito tempo. Jamais entendi porque a Factory mutilou a capa no relançamento em CD e lamento que hoje esteja fora de catálogo.

Apesar de ser um grupo, o Durutti Column é, basicamente, Vini Reilly e amigos.

Apesar de ter vindo da mesma Manchester que deu ao mundo Joy Division, Smiths, New Order, The Fall, Buzzcocks, Magazine, etc etc, Vincent Gerard Reilly tinha um gosto diferente de seus colegas. Apaixonado pelo jazz e blues de Art Tatum, Fats Waller e por compositores clássicos como Benjamin Britten, além de música flamenca, Vini até teve um começo no punk rock fazendo parte do Nosebleeds, banda por onde passou Morrissey e Billy Duffy (Cult).

Vincent Riley até gravou um single com a banda, Ain't Bin To No Music School, editada na compilação The Crap Stops Here, da Rapid Records, em 1980.

O punk rock, porém, não era a praia do frágil Vini, que sofre até hoje de anorexia nervosa. Com seu jeito tímido, introspectivo, Vini só poderia expressar uma música de tal timbre.

Assim, logo após a Factory resolver montar seu selo, o Durutti Column é contratado.

 

Apesar de nunca ter explicado isso corretamente, o nome da banda teria sido uma homenagem ao anarquista espanhol Buenaventura Durruti Dumange (1896-1936), figura chave da Guerra Civil Espanhola. Ao que consta, Durruti (com dois "r" e um "t") conseguiu armar uma coluna de 6 mil anarquistas em Barcelona e Zaragoza, meses antes de ser assassinado com um tiro nas costas. Há pessoas, porém, que negam essa versão, embora Vini tenha grande paixão pela música espanhola.

Vini era um velho conhecido dos dois sócios da gravadora, Tony Wilson e Alan Erasmus.

Os dois resolveram montar um grupo para o novo selo composto dos ex-integrantes do Fast Breeders, Fast Breeder, o baterista Chris Joyce e o guitarrista Dave Rowbotham. Além deles, entraram o vocalista Phil Rainford, o tecladista Stephen Hopkins e o baixista Tony Bowers.

No futuro, Tony Bowers e Chris Joyce deixariam o grupo para integrar o Simply Red, do também nativo de Manchester Mick Hucknall. Phil Rainford logo seria dispensado por não se adequar à proposta do grupo.

Estréiam em um show e participam da coletânea A Factory Sample, ao lado do Joy Division, John Dowie e do Cabaret Voltaire, com as músicas "No Communication" e "Thin Ice (Detail)". Logo após as gravações, Bowers, Joyce e Robbotham saíram para formar o Moth Men, ficando Vini sozinho.

Em 1980 editam o primeiro LP, The Return of the Durutti Column. Um título irônico e uma música esparsa chamam a atenção da crítica, apesar das baixas vendagens. Extremamente cuidadosa com o visual, a Factory lança o disco em uma capa de papel aerado, mudando depois para uma mais conservadora. O trabalho foi produzido por Martin Hannett, que ficou meses nos estúdios Cargo Studios, em Rochdale e no Strawberry Studios, em Stockport, com Vini.

O LP trazia uma música cheia de ecos, com a guitarra com a guitarra de Reilly em primeiro plano, com acompanhamentos ocasionais de Peter Crooks (baixo) e Toby (bateria).

A capa aerada foi logo tirada de circulação, pois riscava qualquer disco que era colocado ao lado ou mesmo em cima dela. A "volta" do título, segundo Vini, foi tirado quando o grupo Situationists Internationale, anunciou a volta das atividades, em Estrasburgo, em 1966, com o título de "The Return of the Durutti Column" em alguns manifestos. Era Durutti mesmo, com apenas uma letra "r" e dois "ts".

Segundo Vini, "sempre me interessei pelo Situationists Internationale, um grupo anarquista na Europa que publicou um livro com uma capa aerada para destruir as capas dos outros livros que ficassem ao seu lado, na prateleira. Isso era muito radical, nos anos 60, e através de seus slogands, críticas e idéias, desejavam mudanças. Eles usaram o título 'the Return of the Durutti Column' várias vezes e achei muito interessante fazer uma música tranquila com um gesto tão anarquista."

Essa deve ser a verdadeira origem do nome da banda e não uma homenagem direta ao anarquista espanhol.

Vini começou a realizar uma série de participações em discos,

O disco trazia as seguintes faixas:

 

Lado 1

1. "Sketch for Summer" - 3:01
2. "Requiem for a Father" - 5:08
3. "Katharine" - 5:30
4. "Conduct" - 5:02

 

Lado 2

1. "Beginning" - 2:28
2. "Jazz" - 1:38
3. "Sketch for Winter" - 2:24
4. "Collette" - 2:23
5. "In 'D' " - 1:39
6. "Sketch for Winter (diff. mix)" - 2:25

Os shows do Durutti sempre foram raros, devido à frágil saúde de Vini e por necessitar de uma acústica especial para suas músicas. Em novembro de 1980 lança o compacto "Lips That Would Kiss (Form Prayers to Broken Stone)"/"Madeleine", pela Factory, e, em março e 1981, o segundo, "Enigma"/"Danny, pelo selo Sordid Sentimentale, que também havia lançado um do Joy Division. Apenas 2.730 cópias foram editadas.

Vini editou mais duas canções para a coletânea From Brussels With Love, da Factory Benelux, "Sleep Will Come" (uma homenagem ao amigo Ian Curtis) e "Piece For An Ideal".

Em novembro de 1981, lança, quase sem querer, o segundo LP, LC. Nessa época, Vini já tinha a companhia do baterista Bruce Mitchell.

"Eu não tinha planos reais para um segundo álbum, até que o guitarrista Bill Nelson me enviou um gravador de quatro canais e eu o liguei a uma bateria eletrônica e uma câmera de eco. Gravei todo o álbum em cinco horas, no meu quarto, enquanto minha mãe dormia ao lado. Ao finalizar, chamei Bruce, fomos a um estúdio e o terminamos em duas horas. Foi apenas uma maneira de passar o tempo."

O "acidente" tornou-se a grande obra-prima do grupo, com vocais delicados, guitarras esparsas e outra homenagem a Ian Curtis, "Missing Boy", que se tornaria uma favorita dos fãs ao vivo. O título é uma abreviação do slogan anarquista, "Lutte Continuum" (A Luta Continua).

LC tinha as seguintes faixas:

 

Lado 1

1. "Sketch for Dawn 1"
2. "Portrait for Frazer"
3. "Jacqueline"
4. "Messidor"
5. "Sketch for Dawn 2"

 

Lado 2

1. "Never Known"
2. "The Act Committed"
3. "Detail for Paul"
4. "The Missing Boy"
5. "The Sweet Cheat Gone"

Vini Reilly finalmente saiu da toca e resolveu tocar pelo mundo, arrebanhando fãs em todos os países que tocou: EUA, Canadá, Finlândia, Espanha, Itália, Espanha, Bélgica etc.

O ano de 1982 é tirado para cuidar da saúde de Vini, que vê a popularidade do Durutti crescer a ponto de ser editado um disco pirata que se torna um "álbum oficial", Live at the Venue London, editado em 1983.

No mesmo ano, é editado um novo LP de estúdio, Another Setting, que mantém a a tristeza e a melancolia características da banda.

Ainda em 1983 Vini recebe um convite para gravar para Portugal e realizar algumas gravações no estúdio Valentim de Carvalho. Ele viaja com a namorada Jacqueline.

A gravação seria editada pela Factory, mas por problemas de direitos jamais explicados, foi lançado pelo selo Fundação Atlântica, que edita o LP Amigos em Portugal.

O disco é dividido em dois lados, "Amigos em Portugal" e "Dedications for Jacqueline" e trazia as seguintes faixas:

"Amigos em Portugal"

1. Amigos em Portugal
2. Menina ao Pé duma Piscina
3. Lisboa
4. Sara e Tristana
5. Estoril à Noite
6. Vestido Amarrotado

"Dedications for Jacqueline"

7. Wheels Turning
8. Lies Of Mercy
9. Saudade
10. Games Of Rhythm
11. Favourite Descending Intervals
12. To End With

O Durutti havia se tornado uma banda "cult" pelo mundo todo e Vini vê sua agena lotada com shows pelo Japão, Austrália, Leste Europeu.

As platéias são receptivas, especialmente a japonesa, que aprecia muito a introspecção do grupo.

Em 1984 é editado um novo disco, Without Mercy, de apenas duas faixas, 18:46 "Without Mercy I" (18:46, Lado A) e "Without Mercy II" (19:35, Lado B).

A capa trazia uma paisagem pintada por Henri Matisse, Trivaux Pond.

A Factory resolveu editar um EP, no ano seguinte, com novas músicas, que acabaram sendo editadas na versão em CD:

Goodbye
The Room
Little Mercy
Silence
E.E.
Hello
All That Love And Maths Can Do
The Sea Wall

O prestígio de Vini era tão grande, que ninguém menos do que Robert Fripp, eterno líder do King Crimson, o escolheu com o o maior gênio da guitarra. Nessa época, o Durutti Column era uma banda de fato, com os seguintes músicos: Vini Reilly (guitars, keyboards and production), Bruce Mitchell (drums, percussion and xylophone), Tim Kellett (trumpet), John Metcalfe (viola), Eleanor (cello) e Maunagh Fleming (cor anglais).

Pouco tempo depois, Kellett iria para o Simply Red e o grupo ficaria basicamente sendo o trio Vini, Bruce Mitchell e John Metcalfe.

Vini Reilly continua tocando, compondo e dando esporádicos shows. Sua discografia é extensa e de difícil catalogação. Os títulos estão espalhados em fitas cassetes, piratas, gravadoras, sem contar que a maioria esmagadora se encontra fora de catálogo.

Sua saúde é irregular, alternando bons e maus momentos. Poderia ficar citando todos os discos, e explicando cada gravação, mas a música do Durutti é muito melhor de ser ouvida do que analisada.

Assim, Deixo com vocês a foto do terceiro lançamento do grupo no Brasil - LC e Without Mercy foram os dois primeiros - Vini Reilly.

Um abraço e até a próxima coluna.

 


Discografia

The Return of the Durutti Column (1980)
LC (1981)
Another Setting (1983)
Live at the Venue London (1983)
Amigos em Portugal (1983)
Without Mercy (1984)
Domo Arigato (1985)
Circuses and Bread (1986)
Valuable Passages (1986)
Live at the Bottom Line New York (1987)
The Guitar and Other Machines (1987)
The First Four Albums (1988)
Vini Reilly (1989)
Obey the Time (1991)
Lips That Would Kiss (1991)
Dry Materiali (1991)
Sex & Death (1995)
Fidelity (1996)
Time Was Gigantic (1998)
A Night in New York (1999)
Rebellion (2001)
Someone Else's Party (2003)
Tempus Fugit (2004)
The Best Of The Durutti Column (2004)
Keep Breathing (2006)
Idiot Savants (2007)
Sunlight to Blue (2008)
Live in Bruxelles 13 August 1981 (2008)

Continental Combo - A Vida é um Mistério


por Rubens Leme

publicado originalmente no site Mofo

Talvez a melhor sensação que se tenha ao ouvir o Continental Combo é a felicidade. Sandro Garcia e companhia conseguem produzir belíssimas canções, com ótimos arranjos e letras sensíveis.

Além disso, ele é um apaixonado pela cidade de São Paulo, o que deixa sempre claro nas capas do CDs ou dos EPs.


Nesse segundo CD, o Continental Combo se mostra bem mais consistente. A Vida é um Mistério (lançado pela Monstro Discos) é o novo trabalho do, agora quarteto, já que ganharam uma segunda guitarra, a de Carlos Nishimiya.


O disco traz 12 novas composições, embora sete delas já estivessem presentes no EP Retiro (lançado pela Question Mark Records), de 2006: "Chegada", "Retiro", "Frio Polar Na Cidade", "Aretha, Aretha", "Caravan", "No Céu, No Chão" e "Partida", um trabalho conceitual sobre a vida em uma grande cidade.


capa do EP RetiroO repertório foi gravado entre 2006 e 2007 e Nishimiya fez parte das novas composições que não estavam em Retiro.


A Vida é um Mistério abre com a vinheta "Chegada", onde Sandro dedilha um banjo. "Retiro" é uma bela composição de Sandro, assim como a faixa-título. A entrada de um segundo guitarrista deu ao grupo mais consistência, deixando a banda mais próxima ao som do Buffalo Springfield e do Love.


A próxima faixa é a instrumental "Frio Polar na Cidade". A banda, aliás, sempre soube fazer ótimas faixas instrumentais, desde os tempos em que Sandro e Carlos Rodrigues integravam o Momento 68. Uma faixa lenta e climática.


A próxima faixa, "Aretha, Aretha", já havia sido gravado por Sandro em seu disco-solo Enigma Central Park. Mas Aretha não é dama do soul norte-americana e, sim, sua cadela.


"Esboços de Abril" é uma faixa da nova safra e minha favorita do novo trabalho. A seguir, entram duas faixas instrumentais, "Caravan" e "A Fúria do Tempo". Sandro volta a dedilhar o banjo em "No céu, No chão". O disco fecha com mais duas faixas instrumentais "Sons do Festival" e "Partida". Ironicamente, os dois últimos lançamentos do grupo começam e terminam com as mesmas faixas e mesma temática.


Um ótimo lançamento de uma excelente banda mostrando que o rock independente brasileiro é de primeiro nível, ainda que sem a divulgação merecida.


Faixas


01. Chegada
02. Retiro
03. A Vida é um Mistério
04. Frio Polar na Cidade
05. Aretha, Aretha
06. Esboços de Abril
07. Caravan
08. A Fúria do Tempo
09. Aquecimento Global
10. No céu, No chão
11. Sons do Festival
12. Partida

por Rubens Leme

publicado originalmente no site Mofo

Em Toda Parte é o segundo disco do Violeta de Outono pela RCA e o mais experimental. Nele, o trio, munido do produtor e músico RH Jackson levou seis meses dentro dos estúdios da RCA compondo a obra.

Ele começou a ser feito em outubro de 1988 e a produção se arrastou até março de 1989.

Segundo Fabio "comecamos as gravações em outubro, mas não conseguimos acabá-las até o final do ano. Tivemos que esperar passar as férias e voltamos a trabalhar apenas em fevereiro."

As gravações sofreram muitas mudanças, pois os conceitos se alteraram, o que causou uma certa dúvida na banda. "Entramos no estúdio com cinco músicas, as demais fizemos lá." Vale ressaltar que foi o primeiro disco brasileiro a usar eletrônica de computador, algo inédito até então.

Na época, Em Toda Parte foi criticado por ser um disco meio sem foco, com várias boas idéias, mas sem uma unidade. Não deixa de ser uma verdade, principalmente porque a mixagem do LP original deixou muita coisa de lado, e essas idéias foram, agora, recuperadas nessa nova versão, em formato mini-LP, com encarte cuidadoso e mixagem primorosa. Fabio Golfetti finalmente conseguiu lançar o disco como queria: "tendo as fitas originais e mixando com um único foco, consegui uma unificação das idéias, dá para perceber melhor."

Enquanto o primeiro LP - Violeta de Outono - tem uma capa mais escura e é um som mais "dark", Em Toda Parte traz uma capa clara e explora mais os ritmos, um belo contraste e investe bem mais na parte percussiva, com grande participação de RH Jackson nos samplers e tratamentos. Fabio se destaca tocando sitar, glissando e até balalaika!

Assim, é um prazer ouvir novamente esse grande disco lançado em junho de 1989 e perceber como o Violeta trilhava um caminho único no rock brasileiro daquela década.

Os clássicos continuam impecáveis, mas com uma mixagem muito mais cuidadosa, dando retoques nas antigas canções. E como é bom ouvir "Em Toda Parte", em toda sua plenitude ou "Vênus, além de incluir a versão de "Terra Distante", que havia sido cortada da primeira edição em CD, nos anos 90.

Uma curiosidade: na versão atual, "Lunática", vem com o solo de guitara invertido e que acabou limando na versão do LP de 1989. Segundo Fabio "estávamos usando o baralho escrito pelo Brian Eno e Peter Schmidt - Obliques Strategies - em alguma decisões musicais e tirávamos as cartas para tomarmos um rumo, além de uma tabela de correspondências". Utlizando isso, foi que optaram em não usar o "truque" inventado pelos Beatles no disco Rubber Soul.

Um petisco a mais para os fãs antigos e os novos, que poderão apreciar um trabalho muito avançado para a época e que ainda hoje soa atual.

O CD pode ser encomendado no site da banda, por R$ 29,90. Uma obra-prima atemporal e obrigatória os amantes da boa música.

Faixas

1. Rinoceronte Na Montanha De Geléia
2. Em Toda Parte
3. Vênus
4. Aqui & Agora
5. Outra Manhã
6. Ilhas
7. Terra Distante
8. Dança
9. Lunática

Bônus
10. Numa Pessoa Só
11. Tropical (instrumental)