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The Durutti Column - Four Factory Records

  • Oct. 25th, 2009 at 8:54 AM
por Rubens Leme

postado originalmente no site Mofo


Ah, é tão fácil escrever sobre coisas que gostamos tanto e que se tornam clássicas. E é tão difícil não cairmos no lugar comum.

Essa caixa é um presente inimaginável para os fãs do Durutti Column (quantos somos?): uma edição com os 4 primeiros LPs - The Return of the Durutti Column, LC, Another Setting, Without Mercy - e ainda mais dois cds cheios de bônus.
Mas, para nosso desespero, apenas 1175 cópias foram feitos (será que nem eles sabem quantos somos?).

O jeito então é correr atrás rapidinho, antes que acabem. Mas também não precisa se desesperar porque após o grande sucesso, estão sendo providenciadas novas cópias.

Das 1175 cópias numeradas, tive a alegria de ser o dono do número 617. E digo isso com muita alegria, porque há anos tentava recuperar uma cópia em CD de LC - já que tenho o vinil nacional tanto dele quanto de Without Mercy.

E se dependesse da Factory - ou que restou dela - jamais seriam reeditados. Então como se deu a mágica?

O culpado de tudo isso é o filho do finado Tony Wilson, dono do selo, Oliver Wilson. Ele conta que após a morte do pai, foi até a casa dele para arrumar as coisas e encontrou um arsenal impressionante de fitas da gravadora, algumas desorganizadas. Intrigado, ficou se perguntando o quê faria com tudo aquilo. Como não encontrava uma resposta, resolveu dar tudo aos artistas originais.

Para Vini Reilly, foi um presente dos céus. Há anos, ele sonhava em editar alguns de seus primeiros LPs, mas não tinha idéia de onde e com quem estariam as fitas masters.

Ao receber, Vini e Bruce Mitchell começaram a ouvir e passaram a bola para um especialista em remasterização para lançamentos em CDs, Keir Stewart.

Segundo Vini, "Keir é o cara ideal para isso, com um talento impressionante e de uma técnica imaculada." E o legado não era pequeno, afinal os 4 primeiros LPs do Durutti são obras absolutamente personalistas da mente e da palheta de Vini, ainda que ele deteste particularmente dois discos: Another Setting e Without Mercy.

Porém, é necessário dar o devido desconto ao gênio em questão. O fato de não gostar dos discos não significa dizer que são ruins, muito pelo contrário.

O primeiro disco, The Return of the Durutti Column foi feito em um momento duro para Vini, já que os músicos de sua banda simplesmente o abandonaram. Reilly, que sempre sofreu de anorexia nervosa, caiu em profunda depressão e ficou jogado na cama e só saiu de lá graças aos esforços de Tony Wilson e de Alan Erasmus, que o levavam ao estúdio, junto com o produtor Martin Hannett.

Segundo o próprio, Martin o obrigou a gravar 13 peças musicais em dois dias e depois ele voltou para casa, para curtir sua tristeza. Vini estava tão doente que só chegou a ouvir as músicas após o disco ter sido prensado e mixado. A primeira capa era em papel aerado, mas depois Tony pediu que Vini escolhesse uma outra imagem, e Reilly optou por uma imagem do artista pós-impressionista Raoul Duffy.

O segundo disco, LC, nasceu de uma maneira inusitada. Vini tinha um gravador de eco e um gravador de rolo simples em sua casa e resolveu gravar algumas músicas de noite, enquanto sua mãe dormia ao lado.

Durante cinco horas gravou várias coisas e no dia seguinte, foi ao estúdio para colocar alguns vocais, alguns overdubs de piano e a bateria de Bruce Mitchell, que havia entrado na banda, meio que por acaso, semanas antes. No dia seguinte, o disco foi mixado. Em menos de 48 horas nascia um dos grandes clássicos dos anos 80. Uma faixa que merece destaque é "The Missing Boy", feita em homenagem ao amigo Ian Curtis.

Another Setting é o grande pesadelo, segundo Vini. A Factory pediu que ele trabalhasse com o engenheiro Chris Nagle e o resultado foi um "desastre". "O som da guitarra não ficou bom. Eu iria cantar mas acabei não cantando. Nada soava bem, o disco todo parecia murcho, sem vida e fiquei incrivelmente desapontado, pois estava em um ótimo estúdio com um ótimo equipamento. Até uma canção como 'The Beggar', que ao vivo fica quase um rock era totalmente sem vida. Fiquei muito desapontado e imagino que Tony também, pois ele investiu muito em mim, queria uma carreira pro Durutti."

Without Mercy é um dos discos favoritos dos fãs, mas não de Vini, que trabalhou nele por encomenda de Tony Wilson. "Tony um dia chegou para mim e disse 'olha eu deixo você fazer todos os discos que desejar da maneira que quiser, desde que você me dê um disco em específico'. Ele queria uma narrativa específica em cima de um poema de Keats 'La Belle Dame Sans Merci', que para Tony era a "canção pop' do poeta. Seria algo com orquestras e metais e muito interessante se eu tivesse algum interesse, mas não verdade eu não tinha intersse algum. Por isso, odiei cada segundo de Without Mercy, porque não pus meu coração no projeto. Eu não gostei do som da guitarra, para começo de conversa, e se a guitarra não responde bem, para mim nada funciona. E foi o que aconteceu nessa gravação."

Foram cinco dias de tortura para Vini, num disco com o próprio Tony produzindo e, apesar da beleza registrada, os dois sentiram que o projeto foi um fiasco. Ao menos, nessas gravações, ele conheceu um músico que viria a ser quase um membro fixo da banda, John Metcalfe.

Fosse apenas uma edição dos 4 CDs e a caixa já valeria muito. Mas ela traz muito mais. Para início de conversa, há uma linda caixa de presente na cor vinho. Ao abri-la, você verá um envelope lacrado e dentro desse envelope seis cds embalados separadamente; em quatro cores diferentes - copiando as cores da capa dos LPs originais - e mais dois cds embalados em invólucros da cor vinho, os extras.

Mas há mais: as quatro capas originais são reproduzidas em papel glossy, maior do que uma capa de CD. Além disso, há mais cinco folhas com entrevistas feitas com Vini, Bruce Mitchell, Oliver Wilson, John Metcalfe, Stewart Pickering (o produtor de LC), Keir Stewart e Tim Kellet, um dos músicos que mais colaborou com Vini ao longo dos anos.

Todo esse material foi editado com o extremo carinho pela pequena gravadora Kooky Records que fez 1175 cópias numeradas, que rapidamente se esgotou.

E como fazer para adquiri-la? Bem, será praticamente impossível que alguma loja no Brasil compre alguma cópia. O melhor que se tem a fazer é o seguinte: munido de um cartão de crédito internacional entre no site do selo, ou no site da banda.

Uma outra alternativa - e foi a que usei - é entrar no site da Amazon, mas a inglesa e não a norte-americana, e comprar uma peça usada. Isso porque eles têm várias em ótimo estado e com preços mais acessíveis, caso você não encontre em lugar algum.

No momento - noite do dia 22 de outubro - há 8 peças usadas com preços variando de 39,99 libras a 200 libras. A Amazon garante a qualidade e funciona como uma intermediária entre o vendedor e o comprador, sempre com ótimos resultados.

Com a baixa do dólar, minha caixa saiu muito em conta e paguei menos de 1/3 do que pediu a Cdpoint, por exemplo, e que ainda não dão 100% de garantia de conseguir um exemplar.

Apesar de serem maneiras elitistas para se conseguir o artefato, segue sendo a única para os fãs brasileiros. Você pode até pedir para uma loja tentar importar, mas saiba que vai pagar bem mais e ainda corre o risco deles não conseguirem.

Por isso, se for realmente fã da banda, corra atrás. É o lançamento do ano, sem a menor dúvida.


Durutti Column

  • Nov. 15th, 2008 at 6:25 PM

por Rubens Leme

postado originalmente no site Mofo

 

Essa é uma coluna triste para mim. Apesar de amar LC e não tê-lo mais, fiquei muito triste quando consegui o email do baterista Bruce Mitchell e pedi a ele uma entrevista com Vini Reilly. Bruce disse que ele iria adorar falar com o Brasil. Como prova de minha boa fé mandei uns dois discos para ele via correio e jamais obtive as respostas. Passados quase 5 anos de espera, resolvi fazer a coluna mesmo sabendo que elas jamais chegarão a mim. Não importa. O que importa mesmo é a música de Vini e do Durutti Column. E que saudades de LC...

 


Em 1987, a gravadora Stiletto (por algum milagre desconhecido) resolveu editar alguns LPs que jamais alguém sonharia em ver no Brasil. Assim, pudemos ouvir Closer (Joy Division), Ignite the Seven Cannons (Felt), Kicking Against the Pricks (Nick Cave) e Durutti Column, com LC.

Todos os grupos eram mais falados do que ouvidos por aqui. É claro que Joy Division era a grande estrela do pacote; mas o que dizer do grupo de Vini Reilly?

LC foi um assombro. Não pela potência, mas sim pela delicadeza, pelos climas hipnotizantes e por ser um disco quase instrumental, já que a frágil voz de Vini é quase inaudível.

Em meio aos lançamentos variados, LC se tornou um companheiro por muito tempo. Jamais entendi porque a Factory mutilou a capa no relançamento em CD e lamento que hoje esteja fora de catálogo.

Apesar de ser um grupo, o Durutti Column é, basicamente, Vini Reilly e amigos.

Apesar de ter vindo da mesma Manchester que deu ao mundo Joy Division, Smiths, New Order, The Fall, Buzzcocks, Magazine, etc etc, Vincent Gerard Reilly tinha um gosto diferente de seus colegas. Apaixonado pelo jazz e blues de Art Tatum, Fats Waller e por compositores clássicos como Benjamin Britten, além de música flamenca, Vini até teve um começo no punk rock fazendo parte do Nosebleeds, banda por onde passou Morrissey e Billy Duffy (Cult).

Vincent Riley até gravou um single com a banda, Ain't Bin To No Music School, editada na compilação The Crap Stops Here, da Rapid Records, em 1980.

O punk rock, porém, não era a praia do frágil Vini, que sofre até hoje de anorexia nervosa. Com seu jeito tímido, introspectivo, Vini só poderia expressar uma música de tal timbre.

Assim, logo após a Factory resolver montar seu selo, o Durutti Column é contratado.

 

Apesar de nunca ter explicado isso corretamente, o nome da banda teria sido uma homenagem ao anarquista espanhol Buenaventura Durruti Dumange (1896-1936), figura chave da Guerra Civil Espanhola. Ao que consta, Durruti (com dois "r" e um "t") conseguiu armar uma coluna de 6 mil anarquistas em Barcelona e Zaragoza, meses antes de ser assassinado com um tiro nas costas. Há pessoas, porém, que negam essa versão, embora Vini tenha grande paixão pela música espanhola.

Vini era um velho conhecido dos dois sócios da gravadora, Tony Wilson e Alan Erasmus.

Os dois resolveram montar um grupo para o novo selo composto dos ex-integrantes do Fast Breeders, Fast Breeder, o baterista Chris Joyce e o guitarrista Dave Rowbotham. Além deles, entraram o vocalista Phil Rainford, o tecladista Stephen Hopkins e o baixista Tony Bowers.

No futuro, Tony Bowers e Chris Joyce deixariam o grupo para integrar o Simply Red, do também nativo de Manchester Mick Hucknall. Phil Rainford logo seria dispensado por não se adequar à proposta do grupo.

Estréiam em um show e participam da coletânea A Factory Sample, ao lado do Joy Division, John Dowie e do Cabaret Voltaire, com as músicas "No Communication" e "Thin Ice (Detail)". Logo após as gravações, Bowers, Joyce e Robbotham saíram para formar o Moth Men, ficando Vini sozinho.

Em 1980 editam o primeiro LP, The Return of the Durutti Column. Um título irônico e uma música esparsa chamam a atenção da crítica, apesar das baixas vendagens. Extremamente cuidadosa com o visual, a Factory lança o disco em uma capa de papel aerado, mudando depois para uma mais conservadora. O trabalho foi produzido por Martin Hannett, que ficou meses nos estúdios Cargo Studios, em Rochdale e no Strawberry Studios, em Stockport, com Vini.

O LP trazia uma música cheia de ecos, com a guitarra com a guitarra de Reilly em primeiro plano, com acompanhamentos ocasionais de Peter Crooks (baixo) e Toby (bateria).

A capa aerada foi logo tirada de circulação, pois riscava qualquer disco que era colocado ao lado ou mesmo em cima dela. A "volta" do título, segundo Vini, foi tirado quando o grupo Situationists Internationale, anunciou a volta das atividades, em Estrasburgo, em 1966, com o título de "The Return of the Durutti Column" em alguns manifestos. Era Durutti mesmo, com apenas uma letra "r" e dois "ts".

Segundo Vini, "sempre me interessei pelo Situationists Internationale, um grupo anarquista na Europa que publicou um livro com uma capa aerada para destruir as capas dos outros livros que ficassem ao seu lado, na prateleira. Isso era muito radical, nos anos 60, e através de seus slogands, críticas e idéias, desejavam mudanças. Eles usaram o título 'the Return of the Durutti Column' várias vezes e achei muito interessante fazer uma música tranquila com um gesto tão anarquista."

Essa deve ser a verdadeira origem do nome da banda e não uma homenagem direta ao anarquista espanhol.

Vini começou a realizar uma série de participações em discos,

O disco trazia as seguintes faixas:

 

Lado 1

1. "Sketch for Summer" - 3:01
2. "Requiem for a Father" - 5:08
3. "Katharine" - 5:30
4. "Conduct" - 5:02

 

Lado 2

1. "Beginning" - 2:28
2. "Jazz" - 1:38
3. "Sketch for Winter" - 2:24
4. "Collette" - 2:23
5. "In 'D' " - 1:39
6. "Sketch for Winter (diff. mix)" - 2:25

Os shows do Durutti sempre foram raros, devido à frágil saúde de Vini e por necessitar de uma acústica especial para suas músicas. Em novembro de 1980 lança o compacto "Lips That Would Kiss (Form Prayers to Broken Stone)"/"Madeleine", pela Factory, e, em março e 1981, o segundo, "Enigma"/"Danny, pelo selo Sordid Sentimentale, que também havia lançado um do Joy Division. Apenas 2.730 cópias foram editadas.

Vini editou mais duas canções para a coletânea From Brussels With Love, da Factory Benelux, "Sleep Will Come" (uma homenagem ao amigo Ian Curtis) e "Piece For An Ideal".

Em novembro de 1981, lança, quase sem querer, o segundo LP, LC. Nessa época, Vini já tinha a companhia do baterista Bruce Mitchell.

"Eu não tinha planos reais para um segundo álbum, até que o guitarrista Bill Nelson me enviou um gravador de quatro canais e eu o liguei a uma bateria eletrônica e uma câmera de eco. Gravei todo o álbum em cinco horas, no meu quarto, enquanto minha mãe dormia ao lado. Ao finalizar, chamei Bruce, fomos a um estúdio e o terminamos em duas horas. Foi apenas uma maneira de passar o tempo."

O "acidente" tornou-se a grande obra-prima do grupo, com vocais delicados, guitarras esparsas e outra homenagem a Ian Curtis, "Missing Boy", que se tornaria uma favorita dos fãs ao vivo. O título é uma abreviação do slogan anarquista, "Lutte Continuum" (A Luta Continua).

LC tinha as seguintes faixas:

 

Lado 1

1. "Sketch for Dawn 1"
2. "Portrait for Frazer"
3. "Jacqueline"
4. "Messidor"
5. "Sketch for Dawn 2"

 

Lado 2

1. "Never Known"
2. "The Act Committed"
3. "Detail for Paul"
4. "The Missing Boy"
5. "The Sweet Cheat Gone"

Vini Reilly finalmente saiu da toca e resolveu tocar pelo mundo, arrebanhando fãs em todos os países que tocou: EUA, Canadá, Finlândia, Espanha, Itália, Espanha, Bélgica etc.

O ano de 1982 é tirado para cuidar da saúde de Vini, que vê a popularidade do Durutti crescer a ponto de ser editado um disco pirata que se torna um "álbum oficial", Live at the Venue London, editado em 1983.

No mesmo ano, é editado um novo LP de estúdio, Another Setting, que mantém a a tristeza e a melancolia características da banda.

Ainda em 1983 Vini recebe um convite para gravar para Portugal e realizar algumas gravações no estúdio Valentim de Carvalho. Ele viaja com a namorada Jacqueline.

A gravação seria editada pela Factory, mas por problemas de direitos jamais explicados, foi lançado pelo selo Fundação Atlântica, que edita o LP Amigos em Portugal.

O disco é dividido em dois lados, "Amigos em Portugal" e "Dedications for Jacqueline" e trazia as seguintes faixas:

"Amigos em Portugal"

1. Amigos em Portugal
2. Menina ao Pé duma Piscina
3. Lisboa
4. Sara e Tristana
5. Estoril à Noite
6. Vestido Amarrotado

"Dedications for Jacqueline"

7. Wheels Turning
8. Lies Of Mercy
9. Saudade
10. Games Of Rhythm
11. Favourite Descending Intervals
12. To End With

O Durutti havia se tornado uma banda "cult" pelo mundo todo e Vini vê sua agena lotada com shows pelo Japão, Austrália, Leste Europeu.

As platéias são receptivas, especialmente a japonesa, que aprecia muito a introspecção do grupo.

Em 1984 é editado um novo disco, Without Mercy, de apenas duas faixas, 18:46 "Without Mercy I" (18:46, Lado A) e "Without Mercy II" (19:35, Lado B).

A capa trazia uma paisagem pintada por Henri Matisse, Trivaux Pond.

A Factory resolveu editar um EP, no ano seguinte, com novas músicas, que acabaram sendo editadas na versão em CD:

Goodbye
The Room
Little Mercy
Silence
E.E.
Hello
All That Love And Maths Can Do
The Sea Wall

O prestígio de Vini era tão grande, que ninguém menos do que Robert Fripp, eterno líder do King Crimson, o escolheu com o o maior gênio da guitarra. Nessa época, o Durutti Column era uma banda de fato, com os seguintes músicos: Vini Reilly (guitars, keyboards and production), Bruce Mitchell (drums, percussion and xylophone), Tim Kellett (trumpet), John Metcalfe (viola), Eleanor (cello) e Maunagh Fleming (cor anglais).

Pouco tempo depois, Kellett iria para o Simply Red e o grupo ficaria basicamente sendo o trio Vini, Bruce Mitchell e John Metcalfe.

Vini Reilly continua tocando, compondo e dando esporádicos shows. Sua discografia é extensa e de difícil catalogação. Os títulos estão espalhados em fitas cassetes, piratas, gravadoras, sem contar que a maioria esmagadora se encontra fora de catálogo.

Sua saúde é irregular, alternando bons e maus momentos. Poderia ficar citando todos os discos, e explicando cada gravação, mas a música do Durutti é muito melhor de ser ouvida do que analisada.

Assim, Deixo com vocês a foto do terceiro lançamento do grupo no Brasil - LC e Without Mercy foram os dois primeiros - Vini Reilly.

Um abraço e até a próxima coluna.

 


Discografia

The Return of the Durutti Column (1980)
LC (1981)
Another Setting (1983)
Live at the Venue London (1983)
Amigos em Portugal (1983)
Without Mercy (1984)
Domo Arigato (1985)
Circuses and Bread (1986)
Valuable Passages (1986)
Live at the Bottom Line New York (1987)
The Guitar and Other Machines (1987)
The First Four Albums (1988)
Vini Reilly (1989)
Obey the Time (1991)
Lips That Would Kiss (1991)
Dry Materiali (1991)
Sex & Death (1995)
Fidelity (1996)
Time Was Gigantic (1998)
A Night in New York (1999)
Rebellion (2001)
Someone Else's Party (2003)
Tempus Fugit (2004)
The Best Of The Durutti Column (2004)
Keep Breathing (2006)
Idiot Savants (2007)
Sunlight to Blue (2008)
Live in Bruxelles 13 August 1981 (2008)

Continental Combo - A Vida é um Mistério

  • Aug. 7th, 2008 at 10:54 AM

por Rubens Leme

publicado originalmente no site Mofo

Talvez a melhor sensação que se tenha ao ouvir o Continental Combo é a felicidade. Sandro Garcia e companhia conseguem produzir belíssimas canções, com ótimos arranjos e letras sensíveis.

Além disso, ele é um apaixonado pela cidade de São Paulo, o que deixa sempre claro nas capas do CDs ou dos EPs.


Nesse segundo CD, o Continental Combo se mostra bem mais consistente. A Vida é um Mistério (lançado pela Monstro Discos) é o novo trabalho do, agora quarteto, já que ganharam uma segunda guitarra, a de Carlos Nishimiya.


O disco traz 12 novas composições, embora sete delas já estivessem presentes no EP Retiro (lançado pela Question Mark Records), de 2006: "Chegada", "Retiro", "Frio Polar Na Cidade", "Aretha, Aretha", "Caravan", "No Céu, No Chão" e "Partida", um trabalho conceitual sobre a vida em uma grande cidade.


capa do EP RetiroO repertório foi gravado entre 2006 e 2007 e Nishimiya fez parte das novas composições que não estavam em Retiro.


A Vida é um Mistério abre com a vinheta "Chegada", onde Sandro dedilha um banjo. "Retiro" é uma bela composição de Sandro, assim como a faixa-título. A entrada de um segundo guitarrista deu ao grupo mais consistência, deixando a banda mais próxima ao som do Buffalo Springfield e do Love.


A próxima faixa é a instrumental "Frio Polar na Cidade". A banda, aliás, sempre soube fazer ótimas faixas instrumentais, desde os tempos em que Sandro e Carlos Rodrigues integravam o Momento 68. Uma faixa lenta e climática.


A próxima faixa, "Aretha, Aretha", já havia sido gravado por Sandro em seu disco-solo Enigma Central Park. Mas Aretha não é dama do soul norte-americana e, sim, sua cadela.


"Esboços de Abril" é uma faixa da nova safra e minha favorita do novo trabalho. A seguir, entram duas faixas instrumentais, "Caravan" e "A Fúria do Tempo". Sandro volta a dedilhar o banjo em "No céu, No chão". O disco fecha com mais duas faixas instrumentais "Sons do Festival" e "Partida". Ironicamente, os dois últimos lançamentos do grupo começam e terminam com as mesmas faixas e mesma temática.


Um ótimo lançamento de uma excelente banda mostrando que o rock independente brasileiro é de primeiro nível, ainda que sem a divulgação merecida.


Faixas


01. Chegada
02. Retiro
03. A Vida é um Mistério
04. Frio Polar na Cidade
05. Aretha, Aretha
06. Esboços de Abril
07. Caravan
08. A Fúria do Tempo
09. Aquecimento Global
10. No céu, No chão
11. Sons do Festival
12. Partida

por Rubens Leme

publicado originalmente no site Mofo

Em Toda Parte é o segundo disco do Violeta de Outono pela RCA e o mais experimental. Nele, o trio, munido do produtor e músico RH Jackson levou seis meses dentro dos estúdios da RCA compondo a obra.

Ele começou a ser feito em outubro de 1988 e a produção se arrastou até março de 1989.

Segundo Fabio "comecamos as gravações em outubro, mas não conseguimos acabá-las até o final do ano. Tivemos que esperar passar as férias e voltamos a trabalhar apenas em fevereiro."

As gravações sofreram muitas mudanças, pois os conceitos se alteraram, o que causou uma certa dúvida na banda. "Entramos no estúdio com cinco músicas, as demais fizemos lá." Vale ressaltar que foi o primeiro disco brasileiro a usar eletrônica de computador, algo inédito até então.

Na época, Em Toda Parte foi criticado por ser um disco meio sem foco, com várias boas idéias, mas sem uma unidade. Não deixa de ser uma verdade, principalmente porque a mixagem do LP original deixou muita coisa de lado, e essas idéias foram, agora, recuperadas nessa nova versão, em formato mini-LP, com encarte cuidadoso e mixagem primorosa. Fabio Golfetti finalmente conseguiu lançar o disco como queria: "tendo as fitas originais e mixando com um único foco, consegui uma unificação das idéias, dá para perceber melhor."

Enquanto o primeiro LP - Violeta de Outono - tem uma capa mais escura e é um som mais "dark", Em Toda Parte traz uma capa clara e explora mais os ritmos, um belo contraste e investe bem mais na parte percussiva, com grande participação de RH Jackson nos samplers e tratamentos. Fabio se destaca tocando sitar, glissando e até balalaika!

Assim, é um prazer ouvir novamente esse grande disco lançado em junho de 1989 e perceber como o Violeta trilhava um caminho único no rock brasileiro daquela década.

Os clássicos continuam impecáveis, mas com uma mixagem muito mais cuidadosa, dando retoques nas antigas canções. E como é bom ouvir "Em Toda Parte", em toda sua plenitude ou "Vênus, além de incluir a versão de "Terra Distante", que havia sido cortada da primeira edição em CD, nos anos 90.

Uma curiosidade: na versão atual, "Lunática", vem com o solo de guitara invertido e que acabou limando na versão do LP de 1989. Segundo Fabio "estávamos usando o baralho escrito pelo Brian Eno e Peter Schmidt - Obliques Strategies - em alguma decisões musicais e tirávamos as cartas para tomarmos um rumo, além de uma tabela de correspondências". Utlizando isso, foi que optaram em não usar o "truque" inventado pelos Beatles no disco Rubber Soul.

Um petisco a mais para os fãs antigos e os novos, que poderão apreciar um trabalho muito avançado para a época e que ainda hoje soa atual.

O CD pode ser encomendado no site da banda, por R$ 29,90. Uma obra-prima atemporal e obrigatória os amantes da boa música.

Faixas

1. Rinoceronte Na Montanha De Geléia
2. Em Toda Parte
3. Vênus
4. Aqui & Agora
5. Outra Manhã
6. Ilhas
7. Terra Distante
8. Dança
9. Lunática

Bônus
10. Numa Pessoa Só
11. Tropical (instrumental)

por Rubens Leme

publicado originalmente no site Mofo

Em 1987, o Violeta de Outono debutava na RCA, com um LP que levava apenas o nome do trio. Na década de 90, Fabio Golfetti conseguiu junto à gravadora, autorização para relançar esse e o segundo LP, Em Toda Parte, em CD, num formato 2 em 1.

Essencial por preencher uma lacuna do rock nacional, a edição 2 em 1, no entanto, não teve o apuro técnico que Fabio tanto desejava. E foram necessários mais de 20 anos para que ele pudesse ver seu sonho se realizar.

Desde 2006, ele acertava os últimos detalhes para um lançamento caprichado dos dois primeiros discos do trio, hoje quarteto. E não foi apenas o som que melhorou muito. Para essas edições, a Voiceprint optou em fazer no formato mini-LP, especialidade dos japoneses, copiando a arte gráfica de capa, contra-capa, encarte. E o som...

Bem, o som é algo de fazer o fã se ajoelhar e agradecer a Fabio por ter conseguido os masters originais com a RCA. Ele mesmo ressaltou a diferença de som que teria em uma entrevista que fiz com ele em 2006. Aliás, veja o que falou sobre os relançamentos: "Já estão comigo as masters originais de 16 e 24 canais gravadas nos estúdios da RCA, agora é apenas uma questão de disponibilidade para mergulhar nas mixagens que sei que vai dar um bom trabalho, mas acredite, não comecei ainda, pois fico contemplando maravilhado aquelas gravações. Como se gravava bem naquele estúdio! Aquele equipamento analógico de primeira... eles tinham mesa NEVE, gravadores Studer, Ampex e os melhores microfones do mundo. A idéia é lançar os 2 LPs em CDs separados com os respectivos bônus, que são faixas inacabadas, que gravamos, mas não entraram nos LPs. Também faremos as capas originais com o máximo de informação que conseguirmos lembrar."

Além das nove faixas clássicas, o disco trouxe quatro extras: as instrumentais "Noite Escura", "Caminho" "OM Voice" e a cover dos Rolling Stones, "2000 Light Years From Home". Toda a essência do Violeta está aí, intacta, mas com uma pureza que não foi possível encontrar na edição 2 em 1. Ouça com cuidado em um fone de ouvido e perceba as nuances de voz e instrumentos em "Declínio de Maio", por exemplo, e compare com a edição anterior. Fabio teve o extremo cuidado na remixagem e na masterização do disco, feitas no estúdio Seven Keys, em São Paulo, em março de 2007. Segundo ele, "tudo que vc ouve no CD estava no tape original, porém, na mixagem ou foi limado ou mixado muito baixo." E ele avisa: "No Em Toda Parte a diferença será mais brutal". Que os fãs se considerem avisados.

Esse primeiro disco será acompanhado do lançamento de Em Toda Parte, por volta do dia 20 de junho. Fabio promete ainda relançar, em breve, o lendário EP de 1986, da Wop-Bop, onde tudo começou. Há também um belo texto, em inglês, de René Ferri, ex-proprietário da Wop-Bop.

O CD pode ser encomendado no site da banda, por R$ 29,90. Uma obra-prima atemporal e obrigatória os amantes da boa música.

Faixas

1. Outono
2. Declínio de Maio
3. Faces
4. Luz
5. Retorno
6. Dia Eterno
7. Noturno Deserto
8. Sombras Flutuantes
9. Tomorrow Never Knows

Bônus

10. Noite Escura
11. Caminho
12. Om Voice
13. 2000 Light Years From Home

Surfadelica - Surfing On The Desertshore

  • May. 23rd, 2008 at 3:26 PM
por Rubens Leme


Fazer rock no Brasil é missão ingrata. Por sorte, existem alguns abnegados que continuam desafiando o "bom-senso" e abrem novas trilhas. O trio Surfadelica é um deles. Com 18 meses de vida - começaram em novembro de 2006 - o grupo lançou este mês o primeiro CD pela Pisces Records, Surfing On The Desertshore.

O mais incrível é a proposta do trio formado por guitarrista Carlos Nishimiya (guitarra), JC Goes Rock (bateria) e Mauricio Guedesson (baixo): surf-music instrumental com influências de grunge, shoegazer e psicodelismo.

O grupo vem acumulando excelente repertório e tomou a decisão de se apresentar apenas quando tivessem um bom número de músicas. Após participarem da coletânea Brazilian Surf A-Go-Go, The Attack Of the Tiki Waves Vol.1 , projeto organizado por Gabriel, dos Autoramas, e lançado apenas em Portugal, o grupo começou a trabalhar em um CD próprio. O resultado é excelente.

Com produção de Carlos Nishimiya e tendo em Sandro Garcia (Continental Combo) um dedicado engenheiro de som, a banda mostra suas armas. Carlos mostra-se afiado como guitarrista e compositor, abusando das mais incomuns texturas de suas guitarras. JC e Mauricio formam uma "cozinha" segura e criativa e que ambientam perfeitamente as canções.

O disco abre com a soturna "Surf Me To The Moons Of Saturn", que mais parece uma música dos antigos filmes dos anos 50. Não seria loucura imaginá-la num disco dos Cramps. Ela já havia sido gravada em dezembro de 2006 para uma coletânea do selo inglês Cordelia Records, mas ganhou um novo arranjo.

"Freakin' Out Surfin' In" tem uma guitarra pesada na abertura, muita distorção, com alguns momentos mais lentos. A terceira faixa, "Flowing Through The Purple Sea" é um dos momentos mais bonitos do CD; minha favorita, no entanto, é "Roswell", quarta faixa, uma faixa muito bem trabalhada e com grandes variações, ótima para se dançar, por exemplo. Igualmente boas são "Quasimoto", "Nobody's Fault" e delicada "View From The Plateau".

Para se adquirir o disco e saber mais da banda, basta ir ao site do grupo. O trio está com uma boa agenda de shows e possui comunidades no orkut e myspace.

O disco vem recebendo elogios de críticos no exterior e o Surfadelica continua cheio de gás para novos projetos e espera surfar ainda mais em breve.

Um dos grandes lançamentos do rock brasileiro em 2008!

Faixas

1. Surf Me To The Moons Of Saturn
2. Freakin' Out Surfin' In
3. Flowing Through The Purple Sea
4. Roswell
5. Falling Into The Heart Of The Sun
6. Quasimoto
7. Questionable Navigation
8. Nobody's Fault
9. Levitation
10. View From The Plateau
11. Overdrive Over Time

Garfields Birthday - "Let Them Eat Cake"

  • May. 23rd, 2008 at 3:21 PM

por Rubens Leme

Após 10 anos de estrada e cinco EPs, o Garfields Birthday chega ao primeiro disco, o excepcional "Let Them Eat Cake".

Não conhecê-los não chega a ser um problema, mas não quer saber quem são, isso sim é um problema.

Os irmãos Simon e Shane Felton e Adrian Payne fazem um excelente power pop com guitarras jangle e influências que vão de Beatles ao Teenage Fanclub. Boa parte dessas músicas estavam em seus EPs originais, o que não desqualifica esse trabalho de maneira alguma.

O trabalho abre com "Molly's Eyes", uma bela canção que flutua entre Byrds e Beatles. "Punch And Judy Man" faz referências aos Beach Boys, mas tem um gosto Cosmic Rough Riders, uma melodia leve, otimista e cantanda com muita alegria.

O mesmo acontece com a climática "Take a Ride" e com acústica "You Should Know Better By Now". Uma das minhas favoritas continua sendo "Mr Newton", com uma ótima conjunção de baixo e bateria. O disco fecha com duas canções mais pesadas, a dançante "Sugar Pop" e o rock básico de "Cocaine Joe".

"Let Them Eat Cake" mostra uma banda sem compromissos a não ser consigo mesmo em fazer boas melodias e um disco que pode ser ouvido várias vezes, coisa rara no mundo pop de hoje.

Não é necessário dizer que isso não saiu no Brasil, mas você pode importá-lo nesse endereço. Altamente recomendável.

Faixas

01. Molly's Eyes
02. Punch And Judy Man
03. Take A Ride
04. We Know Your Name
05. You Should Know Better By Now
06. The Bastion Of Teenage
07. Mr Newton
08. Mystery Boy
09. Sugar Pop
10. Cocaine Joe

 


Vzyadoq Moe

  • Mar. 3rd, 2008 at 8:15 AM
por Rubens Leme

publicado originalmente no site Mofo

Irônico como as pessoas odeiam os anos 80. Nunca entendi o motivo. E o mais incrível é que a música daquela época é odiada e, ao mesmo tempo, lotas festas retrô em todos os cantos. E os anos 80 nos deram ótimas coisas. E também coisas esquisitas, que, de tão esquisitas, eram boas. É o caso do Vzyadoq Moe, um grupo sorocabano, que ousou misturar samba com minimalismo, dadaísmo e rock industrial e que virou a sensação no meio alternativo, entre 1987 e 1990. Em seu primeiro disco, O Ápice, lançado pela Wop-Bop, deixaram sua marca registrada: um rock "industrial" com letras influenciadas por Clarice Lispector, Augusto dos Anjos e impressionismo alemão.


Nos anos 80, o rock brasileiro começava a se atualizar com a música produzida no exterior, especialmente na Europa e Estados Unidos. Embora a importação de instrumentos e tecnologias fosse quase impossível, devidos aos impostos e burocracia, os emergentes artistas nacionais procuravam compensar a falta de estrutura com originalidade e muita vontade.

O Vzyadoq Moe foi mais exemplo de como o Brasil dos anos 80 era interessante e o que poderiam ter feito se tivessem tido a chance de trabalhar em condições ideais.

O grupo surgiu em 1986, na improvável cidade de Sorocaba, interior de São Paulo, a "Manchester paulista". O nome do grupo já mostrava o quão original era: as letras foram sortedas e no final saiu algo "vzyadoqmof". O grupo resolveu deixá-la mais palatável, criando o Vzyadoq Moe e era formado por meninos com idade entre 15 e 17 anos: Fausto Marthe (voz e letras); Marcelo Raymond (guitarra), Marcos Stefafeni "Peroba" (bateria e percussão), Edgard Degas (baixo) e Jacksan Moreira (guitarra).

O grupo foi percebido pela primeira vez na extinta seção da Revista BIZZ chamado "Porão" (bons tempos...). Veja o artigo assinado por Sônia Maia...

VZYADOQ MOE
Um nome impronunciável para um som impressionante.
(Revista Bizz – Novembro de 1986)


Quando a fita aterrissou aqui na redação, os primeiros ouvidos logo questionaram: O que é isso? De onde vêm: Quem são?” Isso era uma mistura inspirada no expressionismo alemão e na poesia dadaísta, usando latas como bateria e percussão, e um vocal antivocal, fora do ritmo. Eles vêm de Sorocaba, interior de São Paulo, e são os Vzyadoq Moe.

Nossos ouvidos não mentiram. Apesar de terem montado o grupo há apenas sete meses, esses garotos (15 a 17 anos) já têm seus caminhos muito bem definidos.
“Queremos chegar à Europa. Tem muita gente que acha que banda nacional não presta. Queremos mudar isso. Temos condições de arrebatar o cetro de Londres. Lá está tudo morto! As únicas coisas novas e que realmente prestam são Smiths e Jesus and Mary Chain.
E aqui? “Mercenárias, Akira S & As Garotas que Erraram, Cabine C, Chance e Fellini”, concordam.
Orlak acrescenta: “Mercenárias estão acima dos outros, mas o Vzyadoq está acima de tudo”, conclui Fausto.
O nome foi feito á base de sorteio de letras. No mais, minimalismo e preocupação de não parecer nada. “Virou até paranóia. Descartamos muitas músicas, porque achamos que pareciam com alguma coisa. Além disso, o que torna o som característico é o fato de todos os instrumentos estarem direcionados para idéia de banda, e não o contrário”, vão completando um após o outro.
Edgard (baixo), Fausto T. (vocal e letras), Orlak (guitarra), J. Calegari Jr. (guitarra) e Marcos (percussão) não estão sendo arrogantes. O Vzyadoq é diferente, é novo, é demente, é idéia pura. Que venha o vinil para que todos possam conferir.

Sônia Maia.

O som do Moe era derivativo, por vezes, de baluartes dos anos 70 e 80, como o Pere Ubu, Joy Division, PiL, e bandas industriais, como o alemão Einstürzende Neubauten. A bateria era formada por latas, pedaços de metal, chapas de zinco, e produziam um som hipnótico e perto do violento. As composições eram feitas de maneiras livres: "'Não existe lei. Às vezes o baixo faz a linha da guitarra, a guitarra marca o ritmo e a bateria define a melodia", falava Marcelo "Peroba", dono da garagem onde rolaram os primeiros ensaios.

O grupo impressionava ao vivo pela violência e carisma em cima do palco, além do som incomum por esses lados. Seduzido por isso, o selo independente Wop-Bop ofereceu-lhes um contrato para a produção de um LP próprio. O produtor escolhido era o jornalista José Augusto Lemos, músico independente do grupo Chance.

capa do disco O ÁpiceEm 1988 é lançado O Ápice, disco que chamou a atenção de críticos no Brasil e no exterior, embora a produção não tenha sido das mais primorosas, tecnicamente falando.

René Ferri, um dos sócios e dono da Wop-Bop, lembra dos problemas: "O disco do Vzyadoq Moe nos deu a idéia completa do que é editar um retumbante fracasso. A gravação se deu no velho e superadíssimo Estúdio Eldorado, sei lá por que motivo. Acho que os músicos não levaram muito a sério o trabalho. A banda devia ser um brinquedo para eles. O corte do disco na RCA saiu ruim e ninguém percebeu ou fez que não percebeu. Conseguimos vender menos de 300 cópias. Foi o disco que mais divulgamos e o que menos deu retorno. Um fracasso completo."

O disco chama a atenção pelas cantadas em português por Fausto, dono de uma poesia única: "ousaste na infância temer a doença / lançaste ao vento mil sortes remotas/ não estás na verdade em alma e transe / e o amor urge, não tarda ou recua."

Ainda assim, o disco mostrava ineditismo do material feito no Brasil e o grupo a se apresentar em vários palcos das regiões Sul e Sudeste.


 


capa do disco Sanguinho Novo - Arnaldo Baptista RevisitadoEm 1989 o grupo participa da coletânea Sanguinho Novo - Arnaldo Baptista Revisitado, coletânea lançada pela gravadora Eldorado, com novas bandas brasileiras interpretando clássicos dos ex-líder dos Mutantes.

O Moe participa com a faixa "Bomba H Sobre São Paulo". Nessa época, o guitarrista Jacksan deixa o grupo para acabar os estudos, entrando Fernandão Dias.

Em 1990, o grupo participa de nova coletânea, Enquanto Isso...?!, produzida por RH Jackson e Alex Antunes.


 


O disco trazia faixas das bandas 3 Hombres, Solano Star, Killing Chainsaw, Akt2 e Notícias Populares, além do próprio Moe, que contribui com "The Cabinet" (a primeira composição da banda cantada em inglês) e "Santa Brigida" e foi lançado pelo selo Manifesto, em outubro de 1990.

O grupo começa, porém, a se ressentir, de melhores condições técnicas e financeiras para trabalhar e o grupo precisa trabalhar em locais improvisados entre São Paulo e Sorocaba para produzirem mais.

Ainda em 1990, o grupo é convidado para tocar em Nova York, no Cat Club, pelo New Music Seminar, mas não podem aceitar o convite por falta de recursos financeiros. Frustrados, entram novamente no estúdio SoftSynch, com RH Jackson e saem de lá com cinco novas músicas.

Após uma parada em 1992, o grupo retorna no ano seguinte como um quarteto e um som mais pesado, próximo do speed metal e gravam mais duas músicas em um estúdio da capital paulista. Ainda nesse ano produzem o primeiro vídeo, “Rompantes de Fúria”. Mesmo assim, desanimam com as pouquíssimas oportunidades e o grupo termina.

Em 1999, sai um último disco da banda, Hard Macumba, de material inédito, além de algumas faixas tiradas de um showno Aeroanta em São Paulo, no ano de 1991.

Em 2001, a Gorila Groove relança, em CD, todo o catálogo da Wop-Bop. O disco O Ápice é editado e se esgota rapidamente, apesar de alguns problemas técnicos. A faixa seis "Não Há Morte" some misteriosamente, e entra em seu lugar, de forma repetida, a número três, "O Incerto". Infelizmente, nenhum dos discos da banda se encontra mais em catálogo.

Deixo vocês com a discografia do grupo. Um abraço e até a próxima coluna.

Discografia

O Ápice (1988)
Sanguinho Novo (1989)
Enquanto Isso...?! (1990)
Hard Macumba (1999)

Electrasy - entrevista

  • Feb. 28th, 2008 at 3:30 PM
por Rubens Leme

publicada originalmente no site Mofo

Geralmente entrevisto bandas novas ou desconhecidas e com uma história de muito pouco sucesso. Mas o Electrasy é diferente. Em 1998, eles chegaram à 19ª posição da parada britânica, com "Morning Afterglow", do disco Beautiful Insane. Nove anos depois, lançam o terceiro disco, o brilhante Wired for Dreaming, pela Pink Hedgehog, que me deixou curioso e me fez pedir uma entrevista, prontamente atendida pelo guitarrista e um dos fundadores, Steve Atkins, que tem um original conhecimento da "música sem indústria". Sendo assim...


Steve Atkins é o que está à frente de  agasalhoPergunta: - Olá, Steve. Como nasceu o Electrasy?
Steve Atkins:
- Ali, o cantor e eu começamos a tocar juntos em bandas na escola. No nosso primeiro show, acidentalmente chutei alguém que estava com o braço quebrado e que acabou me atacando com suas muletas.

A primeira formação do Electrasy aconteceu anos depois através de um anúncio em um folheto grátis. O anúncio dizia: "precisa-se de um baixista e bateristas originais e com mentes abertas. A única pessoa que retornou foi Nigel. Conversamos em um lindo domingo ensolarado na escadaria da casa dos meu pais. Me lembro que essa escadaria tinha uma maravilhosa ressonância natural para o meu violão.

Pergunta: - Você se considera um compositor pop ou acha que esse é um termo muito limitante?
Steve Atkins:
- Sim. E não. E não.

capa do disco Wired For DreamingPergunta: - Wired For Dreaming é um grande disco. Conte um pouco das gravações...
Steve Atkins:
- Nossa antiga companhia, a Arista, estava fazedo grandes alterações e quem havia nos contratado (Clive Davis) acabou sendo demitido. Assim, durante todo esse processo, nós não podíamos fazer nada, que não fosse esperar. Finalmente, quando nos chamaram para gravarmos um terceiro disco, quando o segundo ainda estava sendo conhecido. A gravadora nos deu então liberdade total para gravarmos Wired for Dreaming, no que acredito nos levou a fazermos um disco bem honesto.

Pergunta: - Suas letras refletem sua personalidade?
Steve Atkins:
- Geralmente, nossas letras falam de drogas e cultura espacial. Pessoalmente, sou muito "pé no chão". Eu também costumo sonhar demais, então acho que é muito fácil me ver refletido nas canções. A música parece refletir os altos e baixos da minha vida e as letras muitas vezes não importam, pois, por exemplo, se ouço uma música em uma língua estrangeira e que não entendo, consigo facilmente me emocionar com o som.

Pergunta: - Me fale desse conceito "música sem indústria", sim?
Steve Atkins:
- Bem, quando eu era um jovem sonhador, sonhava em ter um acordo com um grande gravadora pensando que tudo seria perfeito. Anos depois, em 1998, começamos a ter mais opções de um caminho mais independente. Infelizmente, a internet ainda estava nos seus passos iniciais e as poucas que usavam tinha conexões de, no máximo, 56k. Então assinamos nosso primeiro contrato com uma major, a MCA/Universal e lançamos nosso primeiro disco, Beautiful Insane. As gravações foram bem onerosas e não foi muito importante para o grupo, apesar de "Morning Afterglow", ter chegado ao 19º lugar na parada britânica.

Depois disso, a companhia começou a segurar dinheiro e fomos demitidos durante a fusão deles com a Polygram. Endividados, assinamos com a Arista para gravarmos dois discos. Mas eles fizeram cortes no departamento de rock e acabamos demitidos, bem como os demais artistas. Durante essa montanha-russa eu queria redesenhar nosso site e surgiram essas três palavras que explicavam minha frustração e qual a direção futura que seguiríamos: "Música sem a Indústria". Estou tendo boas e animadores respostas com esse conceito e ansioso para ver como isso se desenvolverá.

Pergunta: - Você se sente ligado a alguma cena musical?
Steve Atkins:
- A cena musical e o movimento musical pela internet mantêm meu gosto pela música vivo e com a ajuda do myspace, youtube, facebook, etc, o Electrasy acaba encontrando velhos e novos fãs. Nos situamos geralmente em algum lugar entre o indie, rock e o pop.

Pergunta: - O que você conhece de música brasileira, fora bossa-nova?
Steve Atkins:
- Ouvi Mutantes recentemente e adore o vibe deles!

Pergunta: - Quais são seus cinco artistas e cinco discos favoritos?
Steve Atkins:
- Qualquer disco dos seguintes artistas: Beatles, Pink Floyd, Radiohead, Pearl Jam e Abbie Lathe.

Pergunta: - Como você o rock hoje em dia?
Steve Atkins:
- A internet deu oportunidade às bandas de eliminarem os intermediários e o fãs têm a oportunidade entrar em contato com os músicos de mais maneira mais direta. Muitas rádios e emissoras de televisão ainda trabalham sob ordens de coorporações e se a música independente se a música independente quiser dar um passo adiante, todos nós deveríamos parar de comprar músicas de empresas ligadas às corporações, como o iTunes.

Pergunta: - Deixe uma mensagem aos fãs...
Steve Atkins:
- Nó te amamos e onde quer que você esteja, por favor, apoie as bandas locais. Vote, MÚSICA SEM INDÚSTRIA!

Discografia

Singles

"Lost in Space" (1998)
"Morning Afterglow" (1998)
"Best Friend's Girl" (1998)

Discos

Beautiful Insane (1998)
In Here We Fall (2000)
Wired for Dreaming (2007)

 

Entrevista com o Supercordas

  • Feb. 10th, 2008 at 10:19 PM
publicado originalmente no site Mofo

por Rubens Leme

O rock brasileiro do Século XXI vai mostrando sua cara, que é das melhores. Grupos de vários estilos vão deixando sua marca em maior ou menor escala. Uma das boas novidades é essa inusitada banda que mistura Pink Floyd com Zé Ramalho, o Supercordas. Com uma discografia de dois discos, um EP e um single, o grupo conseguiu uma maturidade impressionante no excelente Seres Verdes Ao Redor (música para samabaias, animais rastejantes e anfíbios marcianos), que remete ao clássico disco Paebiru, de Lula Cortês e Zé Ramalho, com generosas doses de psicodelismo e até Sá, Rodrix e Guarabyra, embora parece não concordarem muito com esse último. Após detalhadas audições do novo trabalho, resolvi pedir uma entrevista, prontamente atendido por Bonifrate. E a entrevista está toda aí...


Pergunta: - Olá, Bonifrate me conte como surgiu o Supercordas e o porquê do nome.
Bonifrate: -
Olá! Nos conhecemos puxando papo em bares por causa de camisetas do Spiritualized e do Spacemen 3 e quando acordamos de ressaca, tínhamos uma banda. O nome vem da última grande teoria da física, que postula que toda a matéria do universo é gerada pela vibração de cordas minúsculas e unidimensionais numa grande sinfonia cósmica.

Pergunta: - O som de vocês é uma referência curiosa a um som mais rural, algo que me lembra um som a Sá, Rodrix e Guarabyra e até a Lula Cortês e Zé Ramalho com o disco Paebiru, misturado com elementos psicodélicos e folks. É isso mesmo?
Bonifrate: -
Sim e não. O Paebiru pode ser sim uma influência constante por estar muito além do rock rural, eu costumo dizer de maneira safada que é o nosso Piper at the gates of dawn (disco de estréia do Pink Floyd). Mas Sá, Rodrix e Guarabyra, por exemplo, já não marcaram tanto a nossa vida musical. Eu só fui ouvir um disco deles depois que começaram a citar como nossa influência, o que é meio engraçado. O folk e a psicodelia vão sempre estar presentes na nossa música, mas não vão ser sempre o aspecto predominante. Esse lance temático rural não estava nos nossos primeiros lançamentos e não estará nos próximos, pelo menos não de forma significativa. Nós somos expedicionários musicais, esse disco foi apenas mais um passeio.

Pergunta: - Vocês possuem nomes diferentes - Giraknob, Wakaplot. Por que?
Bonifrate: -
Eu poderia dizer que é uma incrível coincidência, porque todos já tínhamos pseudônimos quando nos conhecemos, mas coincidências só existem na medida em que confirmam a capacidade do acaso de gerar padrões a partir do caos. Todos temos esses nomes porque somos uma banda com um Propósito, seja ele qual for.

Pergunta: - O novo disco de vocês é excelente. Como foi a maturação dele?
Bonifrate: -
Obrigado. É um projeto imaginado já há muitos anos. Decidimos gravá-lo em 2006, juntanto canções muito antigas com outras muito recentes. Fizemos uma parte das bases nos estúdios da Trama em São Paulo, e o resto gravamos em casa, no Rio e em Parati, onde colhemos muitas ambiências da roça e ruídos de gambás andando no teto, esse tipo de coisa.


 

Pergunta: - Nas fotos que me mandaram eu vi uma grande referência ao Crosby, Stills, Nash & Young. Aliás, me lembrei demais do disco Dèja Vu...
Bonifrate: -
Talvez tenha sido induzido inconscientemente. Adoro o disco, mas prefiro o Crosby, Stills & Nash.

Pergunta: - A sonoridade de vocês é entremeada de flautas, violões, um clima mais bucólico e falam de temas bichos, mato. É essa a essência da "ruradelia"?
Bonifrate: -
Pode até ser, mas a ruraldelia foi só um nome que inventamos porque as pessoas gostam de rótulos. Tudo pra daqui a pouco ludibriarmos todo mundo com um disco futurista.

Pergunta: - Quais são as grandes influências?
Bonifrate: - Temos todos um pé nos anos 60 e 70, tanto no Brasil quanto lá fora. Mas a meu ver, muitas coisas nos anos 90 e 00 evoluíram o espírito daquele som. Posso citar Olivia Tremor Control, Flaming Lips, Jupiter Maçã (e Apple), Gorky's Zygotic Mynci, Mercury Rev, etc...

Pergunta: - Quais são os cinco discos que mais gosta?
Bonifrate: -
Assim, improvisando: Black Foliage Animation do Olivia Tremor Control, Minas do Milton Nascimento, o já citado Paebiru de Lula Cortês e Zé Ramalho, Piper at the gates of dawn do Pink Floyd e o Surf's up dos Beach Boys.

Pergunta: - Como vem sendo a repercussão desse trabalho? Há algum novo no forno? Muitos shows rolando?
Bonifrate: -
Tem sido ótimo. O disco foi muito elogiado na imprensa virtual e real. Nos rendeu viagens a todas as regiões do país (menos o Norte, por enquanto), temos tocado bastante, inclusive em grandes festivais, aparecemos na televisão algumas vezes e toda essa sorte de coisas. Devemos gravar o próximo no início do ano que vem, já temos umas duas dezenas de canções. Vai ser uma jornada sônica nunca dantes imaginada.

Pergunta: - Vocês, no momento, vivem de música ou precisam sobreviver com outros empregos?
Bonifrate: -
Precisamos sobreviver de outras formas, é muito difícil viver de música no Brasil sem ser filho de algum músico consagrado dos anos 70.

Pergunta: - Deixe uma mensagem pros fãs. Valeu pela chance. Um abraço!
Bonifrate: -
Obrigado, galera, por ouvir nossos discos, ir nos nossos shows e por ler essas entrevistas doidas! Fiquem ligados, que 2008 será um ano forte pros Supercordas. Abraços e rayos de psicodelia!


Discografia

A Pior das Alergias (2003)
Satélites no Bar (EP, 2005)
Ruradélica (Single, 2006)
Seres Verdes ao Redor (2006)

 

postado originalmente no site Mofo

por Rubens Leme

Anton Barbeau não conhece a palavra "descanso" e assim segue lançando discos em cima de discos. Fossem eles discos ruins, até seria compreensivo. Mas e quando é um melhor que o outro, como se explica?

Não se explica, o que é muito bom.

The Automatic Door foi realizado em parceria com Su Jordan e um punhado de convidados, dentre eles, o excepcional guitarrista Kimberley Rew, ex-Soft Boys e Katrina and the Waves.

O disco abre com "Staring at the Sun", onde Anton toca vários instrumentos e constrói outra ótima letra: " staring at the sun / trying to find my inner hippie / i'm a self-made hat-rack on the run / there ain't no cause for alarm
there ain't no cause for good reason / it's just hurricane season".

Na segunda faixa, Kimberley se faz notar tocando "guitarra invertida", que os Beatles popularizaram a partir de Rubber Soul. Aliás, "You Can Move a Mountain", tem um sabor bem Beatles.

Um dos grandes momentos do disco é a faixa-título em duas versões e com versos cínicos e divertidos como "except for me you see, i've lived a good life / i never took too many drugs / i never cheated on my wife - except for her best friend but that was just a fling - besides it doesn't really count if i take off my wedding ring".

Su Jordan fica apenas com os vocais, enquanto Anton e amigos cuidam dos instrumentos. Esse é um disco bem acessível e Anton até abriu mão de suas tradicionais vinhetas. Alguns pontos positivos: a bela capa e as belas fotos do encarte, com fotos simples, alegres e cheias de vida, como os músicos; a ótima produção, e acima de tudo, este é o primeiro disco em que Anton disponibiliza as letras em seu site.

Anton resolveu regravar "I've Been Craving Lately", que havia entrado no seu trabalho com o Loud Family. Letras irônicas, composições perfeitas e a doce voz de Su Jordan costurando tudo. Por que isso não é sucesso?

Faixas

1. Staring At The Sun
2. You Can Move A Mountain
3. Beyond the Valley Of The Dolphins
4. Poking Myself In The Eye To Spite My Finger
5. Went All Wrong
6. The Automatic Door
7. Ring Never Bell
8. I've Been Craving Lately
9. Who's The Pony Now?
10. Awe Gee Can't You See
11. The Automatic Door (take 1)
12. As Cool As Folk

 

Mitch Easter - Dynamico

  • Feb. 10th, 2008 at 10:14 PM
postado originalmente no site Mofo

por Rubens Leme


"Há muito tempo que eu não ouvia um disco de rock com essa pegada!"

Essa frase, dita pelo colaborador Pedro Damian, exemplifica bem o que é o primeiro disco-solo de Mitch Easter, ex-líder do Let's Active: um disco de rock puro e simples.

Nos últimos 18 anos, Mitch viveu dentro dos estúdios, mas apenas como produtor. Em uma recente entrevista que fiz com ele, Mitch explicou porque levou tanto tempo para lançar o disco: "Bem, depois que o Let's Active terminou em 1990, eu não sabia o que fazer com as canções que eu havia escrito. Na verdade, a maioria das novas composições hoje em dia são feitas por pessoas jovens escrevendo sobre coisas atuais e eu não sou mais jovem. Continuei escrevendo minhas canções e nos últimos anos percebi que não precisava me preocupar em lançar um disco por um grande selo, porque as pessoas, nos dias de hoje conseguem obter música de várias maneiras e também porque percebi que gosto de escrevê-las. Então, no último verão tive um tempo livre para mixá-las e decidi eu mesmo lançar meu CD para ver o que acontecia. Quero tocar mais pelo país, fazer mais shows e ter um CD faz todo o sentido. Dynamico está indo bem então acho que valeu a pena fazê-lo."

Mitch manteve as características que marcaram sua carreira com o Let's Active: guitarras jangle embebidas de anos 60 e anos 80, com uma simplicidade rara hoje em dia. Excetuando a participação do baterista Eric Marshall na faixa "Ton of Bricks" e de alguns vocais de apoio de Shalini Chatterjee em algumas faixas, Mitch tocou todos os instrumentos em todas as faixas e o produziu em seu próprio estúdio, Fideletorium Recordings.

O disco abre com "1 1/2 Way Street", uma faixa de rock básico e que fala das dificuldades de ser um estranho em uma terra estranha, mas no sentido que o lugar estranho acontece quando se abre a porta de casa. "É sobre o caos da vida moderna", explica Mitch.

"Break Through" foi inspirada quando Mitch estava ouvindo o disco The Fall and Rise of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de Bowie, especialmente alguns em que se destacavam algumas parte com sax.

Ao longo do disco, Mitch um absoluto controle do que faz. Com 51 anos e uma longa ficha corrida como produtor, Easter sabe exatamente o que queria ouvir. Outro grande momento é a faixa "Ton of Bricks", com um belo solo de guitarra.

O disco foi lançado pela 125 Records e se quiser saber mais sobre o álbum, clique aqui.

Dynamico é um dos melhores álbuns de 2007 e resta agora esperar para que Mitch Easter não demore outros 18 anos para nos brindar com um novo trabalho.

Faixas

1. 1 1/2 Way Street
2. Break Through
3. Time Warping
4. You/Me
5. Sudden Crown Drop
6. Ton of Bricks
7. Sights Set on Heaven
8. Dusky Lair
9. To Be, Cool Thing
10. Why Is It so Hard?
11. The Phantoms of Ephemera
12. Glazed
13. I Want a New Scene
14. Love Slaves to Paradise Lost

 

Entrevista com Sandro Garcia

  • Dec. 10th, 2007 at 7:26 AM
por Rubens Leme

Poucas coisas podem nos fazer viver ou morrer por elas. Rock está nessa lista. Na minha, ao menos. Música é uma velha companheira e confidente há tanto tempo que me fez querer entender e escrever sobre ela. Mas escrever sobre algo tão belo é complicado.

No filme Quase Famosos o crítico musical Lester Bangs diz que devemos ser impiedosos com quem entrevistamos e jamais ficarmos amigos dos mesmos. Eu discordo disso veementemente. Acredito e faço entrevistas apenas de quem gosto sempre procurando uma aproximação cordial. Estou lá para entrevistá-lo e não para esmagá-lo.

Esse pode vir a ser o caso com Sandro Garcia. Não o conheço bem, embora tenha conversado com ele uma vez após um show do Violeta de Outono. Mas Sandro possui no Continental Combo duas pessoas que conheço; dois Carlos: o Nishimiya é meu amigo há 10 anos. O Rodrigues é uma pessoa bacana e a quem devo uma grana, que será paga em algum momento. Nem que a envie via Major Tom...

Foi o Dalai Lama quem disse que os homens adoecem ganhando dinheiro e que depois o gastam todo tentando recuperar a saúde. Não quero isso. Aposto que Sandro também não. Ele quer apenas tocar rock and roll. Eu quero apenas ouvir e escrever sobre isso.

Pete Townshend imortalizou a frase "espero morrer antes de ficar velho". Mas Pete errou, assim como Lester. E Lester está morto. Pete ainda não. Nem eu. Nem Sandro. Sendo assim porque não ler o que Sandro tem a nos dizer? Conte-nos Sandro. Conte como tudo começou...


Sandro GarciaPergunta: - Como você começou? Quando se apaixonou pela música e descobriu que queria ser músico?
Sandro Garcia: -
Na primeira metade da década de oitenta. Nessa época, a descoberta do meu lado musical foi reforçada quando comecei a trabalhar de office boy no centro de São Paulo e estabeleci um contato com as lojas de discos. Havia também o clima de efervescência do rock paulista, fui em muitos shows o que me serviu definitivamente como incentivo a comprar um instrumento (um contra-baixo) e montar uma banda.

Pergunta: - Fale um poucos dos grupos onde tocou...
Sandro Garcia: -
A primeira foi o Faces e Fases, um grupo que não chegou a lançar nenhum material oficial. Tocamos muito durante a segunda metade da década de oitenta. A banda era totalmente influenciada pela sonoridade Mod. Em seguida, no início dos 90, foi o The Charts, que também carregava influências do Mod, mas mesclada com o som das garage-bands americanas e, na fase final já havia na sonoridade do grupo algo de psicodélico e folk. O Charts fez muitos shows de 90 até 99, em 2006 nos reunimos para uma apresentação especial na festa Start!

Toquei também, por um curto período, no Ultimates uma banda que teve várias fases, toquei entre 96 e 97 nesse periodo o som era bem garageiro. Em 98, montei com o Plato o Momento 68, que depois virou um trio e acabou em 2002. O grupo deixou, entre vários lançamentos o disco Tecnologia.

Entre 2000 e 2001 toquei no Violeta de Outono nos shows de lançamento do disco Mulher na Montanha. Com o fim do Momento 68 em 2002, o Carlos (baixista) eu, mais o Rogério, formamos o Continental Combo banda que estamos tocando até então. Houve ainda a minha cooperação como baixista na banda de apoio do Cadão Volpato. O grupo foi formado para fazer os shows de lançamento dos seu primeiro disco solo chamado Tudo que eu quero dizer tem que ser no ouvido. Também toquei baixo com os The Darma Lovers e ainda possuo um projeto instrumental chamado Dellatrons com o músico e desenhista Marcelo Badari.

Pergunta: - Você tocou, basicamente, em trios - Charts, Violeta, Momento 68. Por que o Continental Combo abandonou essa formação e convidou Carlos Nishimiya para ser o segundo guitarrista?
Sandro Garcia:
- Desde do Momento 68, nas gravações, eu sempre acrescentava muitos overdubs de guitarra e no Continental acontece o mesmo e notamos que seria muito bacana ter a possibilidade de alguém tocar conosco ocupando esta lacuna que a banda deixava ao vivo. Então, encontramos o Carlinhos, que é um musico genial, eu diria que sua entrada na banda foi vital, ajudando de forma crucial para os próximos passos do grupo.

Pergunta: - Nishimiya é um velho conhecido meu, fui balconista da Sweet Jane e cliente por anos e Golfetti é um bom amigo até hoje. Você vê alguma semelhança entre eles, além do fato de serem guitarristas?
Sandro Garcia:
- Eles são, de certo modo, hérois combatentes da cena musical. Ambos são grandes guitarristas, extremamente minunciosos, figuras apaixonadas por música. São duas personalidades muito dedicadas e transbordam simpatia.

Pergunta: - Suas letras são abstratas, simbólicas, um estilo bem parecido com as de Fabio Golfetti. Como vocês as constrói? Elas vêm primeiro, depois ou junto com as melodias?
Sandro Garcia:
- Geralmente as letras vão tomando forma junto com a idéia musical, uma preocupação constante embora tudo aconteça de forma natural é que a letra transmita uma idéia visual servindo de forma complementar ao som da composição.

Pergunta: - No Momento 68 e do Continental você era e é o principal compositor, vocalista e guitarrista, mas no Charts e no Violeta era "apenas" o baixista. Como você lidava com essas mudanças? E qual instrumento você prefere mais?
Sandro Garcia:
- Como músico e instrumentista é com o contra-baixo que me sinto mais tranquilo, mas com a guitarra ou violão encontro um caminho mais amplo para desenvolver minhas composições. Não sei exatamente qual é o meu preferido; às vezes mesmo não tendo o domínio técnico sobre determinado instrumento procuro utilizá-lo como uma ferramenta de expressão das minhas idéias musicais.

Pergunta: - Os Charts tinha uma linguagem mod muito forte, influências nítidas de Who, Jam e até Small Faces. Flávio Telles tinha uma boa voz, potente. Por que a banda acabou? O que ele anda fazendo?
Sandro Garcia:
- A banda tocou durante muito tempo e acredito que acabamos chegando em um momento em que ficamos sem perpectivas do nosso futuro musical, então o grupo desmoronou. Sei que o Flávio têm ótimas composições gravadas em formato demo, mas infelizmente, nunca foram apresentadas com uma nova banda ou projeto.

Sandro com o VioletaPergunta: - Você ficou um bom tempo no Violeta, mas não há registros oficiais com você, apenas com o Gregor. Isso te chateia?
Sandro Garcia:
- Toquei entre 2000 e 2001, não vejo nenhum problema em não ter dado uma maior contribuição musical tocando baixo em algum disco da banda; claro teria sido uma honra, mas foi uma experiência musical muito importante ter tocado as sensacionais composições do Fabio nos shows.

Pergunta: - Uma curiosidade: é possível viver apenas da música ou você tem um emprego?
Sandro Garcia:
- Tenho o meu estúdio, o Quadrophenia, que em 2008 vai fazer dez anos, mas mesmo assim ele só paga as contas. Viver com um trabalho musical onde você tenha total liberdade é bem dificil, mas há muitos caminhos nesse universo, cada um pode escolher o que melhor lhe convem. Uns conduzem sua trajetória musical de forma absolutamente tranqüila, gravando discos de forma completamente independente e existe também aqueles que chegam a sobrepor a qualidade e o caráter musical do grupo pela necessidade de estar toda semana na MTV.

Pergunta: - Como você vê a cena rock brasileira em geral e a cena paulista, especificamente? Considera os espaços e as divulgações hoje mais precárias do que há 10, 20 anos atrás?
Sandro Garcia:
- A quantidade de bandas tem aumentado cada vez mais, criando uma concorrência muito maior, e na cena alternativa a qualidade deste ou daquele trabalho não é só o que manda, você têm que matar dez leões por dia, e como sou defensor dos animais acabo deixando este trabalho sujo para outras bandas. Nos espaços pra shows, no circuito alternativo aqui em SP, há uma linha tênue entre a total precariedade e o mínimo de qualidade. Faltam espaços de médio porte, teatros, lugares onde a atração musical seja o principal motivo para agregar as pessoas.

Pergunta: - Eu defendo uma tese de que o espaço rock na mídia é cada vez mais escasso; as rádios não tocam mais rock, a não ser algumas que investem no chamado "classic rock"; o público também prefere outros estilos, mais populares e os espetáculos do gêneros são mais ligados aos grandes nomes. Você concorda comigo ou me acha muito fatalista?
Sandro Garcia
: - As rádios realmente não se preocupam em reciclar o "play list" com novos talentos, isso só têm acontecido em programas pela internet (por exemplo como Loaded e-zine). Estes espaços que a internet possibilita são dezenas de vezes mais democráticos.

capa do disco Tecnologia, do Momento 68Pergunta: - Eu sou grande fã do Momento 68, achava uma grande banda, tenho o CD Tecnologia e dois singles - Onde Estão Suas Canções? e o Ziggy - e tenho uma curiosidade. Por que o personagem "Homem Retalho" não aparece na faixa de mesmo nome e sim em outra canção? Isso me lembrou aquela coisa dos Doors, de lançarem o disco Waiting for the Sun, mas de gravarem a música apenas em Morrison Hotel.
Sandro Garcia:
- As duas composições foram feitas com a idéia de transmitir a solidão de um personagem em uma grande metrópole. A letra de "O Homem Retalho" foi terminada sem que a composição tivesse esse nome, achei que a descrição do cenário combinava com um protagonista melancólico, então lembrei do personagem que estava em "Outra Cidade" aí batizei esta faixa do Continental Combo com este nome, criando uma ligação entre as situações descritas nas duas composições.

capa do disco de estréia do Continental ComboPergunta: - "Homem Retalho", aliás é a minha música preferida do disco de estréia do Continental Combo, uma linda melodia, que tem uma levada - se me permite o disparate - que parece uma "melancolia alegre". O que você tinha em mente quando a compôs?
Sandro Garcia:
- A cidade, lugar que tanto convivo é, e sempre será, aminha fonte de referência. Quando me deparo com a necessidadede de criar uma letra para uma nova composição é nela que vou buscar as informações. Por ela, circulam muitos personagens com suas alegrias e tristezas, livres ou oprimidos, cheios de esperança ou de desilusões; a dualidade que habita em todas as metrópoles é a minha matéria prima principal. O cinema também é outro ingrediente muito importante, filmes como o genial O Homem que virou Suco (com José Dumont) e A Hora da Estrela (com Marcélia Cartaxo e José Dumont), têm um paralelo absoluto com esta composição do Continental.

Pergunta: - Qual a importância da internet na vida de vocês? A banda usa e abusa dessa ferramenta para a divulgação ou preferem o velho e fiel boca-a-boca? A sua esposa, Consuelo, te ajuda bastante, não?
Sandro Garcia:
- Hoje a internet é um ferramenta importante para qualquer músico ou artista para divulgar e organizar o trabalho. O Continental têm sua página no My Space e também em breve uma home page oficial.

Pergunta: - Quando sai o novo disco do Continental?
Sandro Garcia:
- No primeiro semestre de 2008, com absoluta certeza. (N do E: O disco se chamará A Vida é um Mistério e eis a capa dele, segundo nota do próprio Sandro em seu blogs e terá 12 faixas.)

Pergunta: - Há alguma chance dos Charts e do Momentos serem reativados, ainda que para alguns shows, somente?
Sandro Garcia: - Acredito que não.

Pergunta: - Você saberia dizer qual a faixa etária do seu público?
Sandro Garcia:
- Não saberia te responder com exatidão, talvez dos oito aos oitenta.

Pergunta: - Vocês fizeram um especial dos Byrds. "Nova Manhã" tem um final tipicamente byrdniano. Sua praia é realmente os anos 60, não?
Sandro Garcia:
- Apesar de ouvir muitas bandas de de periodos diferentes, são as dos anos sessenta que ainda de forma muito forte me servem de base para criar as canções.

capa do disco do The ChartsPergunta: - Uma curiosidade: por que no disco do Charts (SP em PB) e no do Continental vocês deram destaque a uma placa de sinalização de trânsito?
Sandro Garcia:
- A semelhança entre elas foi casual; no caso do Charts a idéia foi buscar elementos da Pop Art e Mod e a placa com a seta traduz isso muito bem. A arte do disco do Continental surgiu de fotos que fui fazendo na estrada, quando a banda foi tocar em Londrina. A minha visão pessoal da foto usada na capa com estrada e a placa de sinalização é o da banda sempre percorrer seu caminho, olhando para frente.


 


capa do último EP do grupo, Retiro Pergunta: - Poderia me dizer sua discografia completa com todas as bandas?
Sandro Garcia:
- Há uma quantidade consideravel de lançamentos entre Eps, Singles e títulos não oficiais, além de algumas participações (onde toquei algum instrumento) discos de artistas como: Laboratório SP, Skywalkers, Cadão Volpato, Blue Afternoon, Plato Divorak, Manta, Fotograma, The Automatics e o Violeta de Outono. Então vou deixar aqui um pequeno resumo de alguns títulos:
The Charts - Carbônicos [1996 - Suck MY Discs - Suck 002 CD]
The Charts - São Paulo em PB [2005 - Solaris Discos - SLRS - CD 0545]
Continental Combo - Continental Combo [2005 - Monstro Discos 065- CD]
Dellatrons - Dellatrons [2001 - Bada0- CDR]
Dellatrons - Asia Lee [2002 - QMR#06 - CDR]
Dellatrons - Gunnar Lou [2003 - QMR#007 - CDR]
Faces e Fases,1987-89 em Lo-Fi [2005 - QMR#011 - CDR]
Momento 68 - Single em Vinil [2000 - Monstro Discos # 011]
Momento 68 - Tecnologia [2002 - Sebo 264/ VoicePrint VPB 105 CD]
Sandro Garcia - Enigma Central Park - demos vol.1 [2005 - GRR003 - Open Field/Peligro - CD]
Explanações Vídeo Compilação vol.1 [2007 - QMR]

Pergunta: - Obrigado pela chance e desculpe esse questionário interminável. Deixe um recado aos fãs. Um abraço e boa sorte na carreira!
Sandro: -
Rubens, agradeço muito pelo espaço e gostaria claro de agradecer a todos que sempre estão dispostos a nos dar uma força e também àqueles que estão por ai, produzindo seus trabalhos de forma independente (zines, blogs, bandas e etc). Valeu, gente!!!!

Valeu, Sandro!

Show de Daevid Allen em São Paulo

  • Oct. 29th, 2007 at 11:04 AM

por Rubens Leme

Daevid Allen & GONG Global Family
Brazil Tour 2007

No mês de Novembro, o criador de duas das mais importantes bandas psicodélicas de todos os tempos, o Soft Machine & Gong, estárá se apresentando no Brasil. Confira a programação através do site:
http://www.invisivel.com.br/daevid

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1º São Paulo Art Rock

Também no mês de Novembro, no dia 10 acontecerá a 1ª. Edição do São Paulo Art Rock, reunindo 3 bandas importantes do cenário prog-rock Brasileiro: Tarkus (SP), Violeta de Outono (SP) e Apocalypse (RS). Maiores detalhes no site:
http://www.saopauloartrock.com.br

Entrevista com Freak Circus

  • Oct. 24th, 2007 at 3:46 PM
por Rubens Leme

texto originalmente publicado no site Mofo

É possível ser punk 30 anos depois do movimento, mas não uma mera imitação? Sim, se você ouvir Freak Circus, uma das novas bandas britânicas que abraça os lemas de 76 com a mesma paixão que empunham seus instrumentos. O grupo vai pela contramão e de quebra abrem o novo disco com uma faixa intitulada "All You Need Is A Gun". Mas que ninguém pense que pregam a violência; a idéia é a ironia desses dias tão violentos. Com um disco bem bacana lançado recentemente, me atrevi a pedir uma entrevista. Eis o que respoderam...


Pergunta: - Olá, poderiam me dizer como a banda começou?
Wolfman (Vocais): - Bom, alguns de nós são realmente unha e carne como é o meu caso com o Moonface (baixo), que é meu irmão. Eu conheci Aquafibio (guitarra) na escola em nossa cidade-natal, Weymouth e formamos nossas primeiras bandas com vários outros bateristas. No começo, éramos mais ligados ao glam rock e dividíamos uma grande paixão por Bowie e Bolan. O Freak Circus nasceu das cinzas de uma banda pop de nome Dead Joe, no qual desenvolvemos paixão pelos aspectos da música punk, seguindo a tradição iniciada por Iggy Pop. Nessa época, tínhamos um baterista dedicado, Lobster Boy, que dividia as funções entre o Dead Joe e nós. Quando ele nos deixou, The Non Bearded Ady assumiu admiravelmente as funções.

Pergunta: - Freak Shall Inherit The Earth é um disco bem bacana. Me fale um pouco dele, por favor...
Wolfman: - Obrigado por ter gostado. É nossa estréia pela Pink Hedgehog e contém nossas melhores canções que gravamos e distribuímos durante nossos shows.
Aquafibio: - O CD é um amálgama de canções feitas em estúdio com a primeira formação junto com coisas da atual e mais bem produzidas ("Troubling Trainspotters for Loose Change", "It Took Some Time" e "Custers Last Cluster Bomb").
Wolfman: -
Yeah, nessas músicas novas tentamos capturar a energia de nossas apresentações. Mas, apesar de parecerem cruas, elas possuem melodia. Para ser honesto, amamos tudo e ainda que tenhamos usado diversos métodos de gravação, o disco parece que tem uma grande coesão. Não me importo que pareça uma coletânea e fico muito orgulhoso que finalmente elas possam alcançar o mundo todo.
Aquafibio: - Basicamente, é um disco sem um conceito definido e sim um compêndio de canções que significa muito para nós.

Pergunta: Vocês se vêem como compositores pops ou essa é uma visão muito limitada?
Aquafibio:
- Gostamos de pensar que conhecemos algumas fórmulas que irá agradar os ouvintes instantaneamente e que também sabemos quando devemos ignorar essas limitações.
Wolfman: - Basicamente, as canções aparecem de mim ou do Aquafibio. Nós as apresentamos ao grupo ainda bem cruas e as desenvolvemos coletivamente. Algumas elas podem mudar completamente de rumo, como foi o caso de "Sex Vampire", por exemplo, escrita pelo Aquafibio. Lobster Boy fez bastante mudanças com sua bateria e a tornou uma das mais leves. Temos uma grande gama de estilos em nossa música e o pop é um deles, por isso podemos fazer baladas ou canções simplesmente punks, mas sem perder a força.

Pergunta: - No que se inspiram para escrever as letras?
Aquafibio: -
Em experiências pessoais e algumas delas são bem bizarras.
Wolfman: - Não acho que as minhas tenham algo de pessoal, pois tenho uma tendência a reservar meu lado pessoal para outros projetos. As músicas geralmente começam com uma idéia inicial de um título. Um bom exemplo é "Custers Last Cluster Bomb", uma melodia no qual Aquafibio estava escrevendo e que me deu para escrever um título. Às vezes elas podem refletir uma idéia nossa sobre algo como é o caso de "Ugly Head" que fala sobre as ideologias de fãs ou "Chemistry" , que é uma homenagem ao punk.

Vocês ainda acreditam no poder da música e nos ideais punks de 76?
Aquafibio: -
Sim, pois se não tiver fé na música e no amor, não há nenhuma razão para continuar a viver.
Non-Bearded Ady: - A vida muda, é só dar uma olhada no Live Aid. E a música ainda tem o poder de eriçar os pêlos da sua nuca, embora eu não tenha certeza que muitas músicas tenham feito algum efeito em mim durante muito tempo.
Wolfman: - Eu acredito que o espírito de 76 ainda esteja vivo. Há vezes em que desaparece, mas no final, música e rebelião andam de mãos dadas. Talvez a revolta seja um pouco mais forte, mas é a música que dá uma voz aos jovens. Não é necessário ser um punk, mas acho que o punk é o exempl mais óbvio. Talvez o gótico seja outro. Seria ótimo que nossos discos ajudassem os outros a encontrar sua própria voz, mas não os fazemos com essa intenção. É algo bem mais egoísta: criamos músicas que queremos ouvir e é fantástico que outras pessoas se liguem no nosso som.

Pergunta: Vocês se sentem parte de alguma cena em particular? Como descreveriam a música que fazem, apenas punk?
Wolfman: -
Essa é uma questão difícil para mim, pois acho que cobrimos uma vasta gama de gÇeneros, mas ao mesmo tempo acho que temos uma base bem punk. Não iria tão longe dizendo que fazemos parte de alguma cena específica, mas às vezes acontece e depois some. Acho que sempre terá espaço para o punk influenciado a música, pois libera energia. E após um longo e pesado dia, muito de nós quer apenas uma bebida e sair pulando para exorcizar os demônios.
Non-Bearded Ady: - Somos mais melódicos que os grupos dos anos 70 e temos a mesma energia deles.
Aquafibio: - Certamente nossas composições são contemporâneas, mas a música é derivada de nossas influências.
Wolfman: - De certa forma, apesar de sermos ingleses, nosso som tem mais a ver com a cena de Nova York, do CBGB. Mas algum acham que temos um pouco de Bowie, o que é bom, pois não queremos soar como uma banda americana e sim captar a música que gostamos.
Aquafibio: -
Penso que do jeito que a cena musical de hoje está, ela oferece mais escolhas para os ouvintes e quem compra discos tem uma variedade maior de estilos.
Wolfman: -
Acho que isso acontece por causa da internet, porque as pessoas podem ouvir exatamente o que desejam sem serem guiados pela imprensa musical.

Pergunta: - O que conhecem de música brasileira, excetuando bossa nova?
Aquafibio -
Gosto muito. Sérgio Mendes é um gênio, especialmente o disco Brazil 66.
Wolfman: - Já que eu disse que a internet facilita muito o acesso às novas músicas, acho que me sinto obrigado a procurar algo sobre a cena independente brasileira. Farei isso imediatamente!

Pergunta: - Quais são seus cinco discos favoritos e cinco artistas?
Wolfman: -
Muda demais, mas meus artistas favoritos são Guided by Voices, Iggy Pop, Cat Power, The Ramones e David Bowie. Entre os álbuns meu favorito é Berlin de Lou Reed. Under the Bushes, Under the Stars, do Guided by Voices chega perto. O primeiro dos Ramones é um clássico e uma influência imensa em mim como compositor. E não posso me esquecer da primeira fase de Bowie; Hunky Dory é meu favorito. No momento o novo da PJ Harvey, White Chalk, é o que mais ouço.
Aquafibio: - Meus favoritos são The Man Who Sold The World (Bowie); Gentleman (Afghan Whigs), Soft Bulletin (Flaming Lips); Thunder and Lightning Strike e And the Glass Handed Kites, ambos do Go-Team.
Non-Bearded Ady: - Difícil, mas gosto de Kings of Leon, Green Day, My Chemical Romance, Muse e Bowling for Soup.
Wolfman: -
Eu sei que o Moonface gosta de ouvir coisas mais clássicas e trilha sonoras, especialmente as de Ennio Morricone e Danny Elfman. E acho que pode ouvir todas essas nossas influências em Freak Shall Inherit The Earth, que é bem diversificado!

Garfields Birthday e Freak CircusPergunta: - O que vocês acham da atual cena rock?
Aquafibio: -
Acho ótimo ter tanta escolha. A cena é fantástica, mas é sempre necessário pesquisar antes de achar algo.
Non-Bearded Ady: - Está melhorando, mas não suporto a cena americana de thrash metal.
Wolfman - Não há nada que me deixe muito animado. Há muitas bandas estranhas e boas, mas isso acaba sendo um ciclo. Espero ansioso uma nova revolução punk.

Pergunta: - Obrigado pela entrevista. Deixem uma mensagem final.
Non-Bearded Ady: -
Comprem o disco. Será de item de colecionador quando chegar à platina. Se pedir com jeitinho, poderá ter o seu auytografado antes da banda ficar famosa!
Aquafibio: - Agradecemos a todo pelo apoio e pelos cds que compraram.
Wolfman: -
É gozado como estamos sendo reconhecidos pelo que já fizemos. Talvez seja resultado de sermos um tesouro bizarro, não sei! Mas o fãs são maravilhosos nesse sentido e nossa mensagem tem se espalhado. Para o final dessa entrevista, gostaríamos de deixar uma mensagem para aqueles que ainda não nos conhecem: The Freak Circus está chegando! 

Entrevista com Surfadelica

  • Oct. 6th, 2007 at 9:48 AM
por Rubens Leme

texto originalmente publicado no site Mofo

Carlos Nishimiya considera-se um verdadeiro adepto do R.I.P. (Rock Impopular Brasileiro e não Rest In Peace, boys!) em seu perfil no orkut. Mas Carlos é, isso sim, um maníaco por música desde muito jovem e por causa da música se divide em vários. Após passagens pelo Magazine, Maria Angélica Não Mora Mais Aqui e outras bandas, Carlos abraça um novo grupo, uma nova proposta: Surfadelica, uma mistura de surf-music com psicodelismo, garagem, shoegazer e muito mais. Apesar de ainda não terem debutado em palco, o Surfadelica já apareceu em uma coletânea do gênero editada em Portugal e apenas em vinil. Além disso, prepara um disco próprio. Nessa entrevista, Carlos conta um pouco de sua vida, dos seus antigos projetos, os atuais e o que esperar desse trio inspirado. Com vocês, Mr. Savage Fuzz Guitar...


Pergunta: - O trio tem menos de um ano de atividades, mas já está cheio de projetos. Conte um pouco desse começo, por favor...
Carlos Nishimiya: -
O trio começou suas atividades em novembro de 2006. Como eu já estava cheio de demos que havia feito em casa com meu antigo porta-estúdio de 4 canais, achei que era hora de fazer uma banda instrumental de surf music que tivesse apenas músicas próprias. Na época, eu ainda estava com o Los Tornados, mas o grupo estava mais voltado a executar clássicos do estilo e músicas obscuras e não tinha muito espaço para o que eu queria fazer, que eram minhas composições e também porque o background de Sonny e McCoy sempre foi o rockabilly e eu estava querendo enveredar por um caminho que fosse mais ousado, melódico e psicodélico. Com esse material em mãos escolhi dois amigos que achava que poderiam ter o perfil adequado ao Surfadelica, gente de mente aberta, que curtisse a vibração da surf music, mas que ao mesmo tempo não tivesse restrições em ousar: JC Góes Rock na bateria e Mauricio, um multi-instrumentista que conhecia por termos tocado numa banda cover dos Cardigans! Nessa época pensei que poderia conciliar ambas as bandas, o Surfadelica e o Los Tornados. Até que durou por um tempo.

No começo de 2007, o Los Tornados havia sido convidado a participar do maior festival de surf music no Brasil, o Sexto Primeiro Campeonato Mineiro de Surf, que ocorreu em 7 de abril de 2007. Para isso entramos em estúdio e gravamos três canções minhas. O show em Belo Horizonte foi ótimo, mas também foi o fim do Los Tornados porque ficou evidente que não existia muito interesse em continuar trabalhando no meu material. Assim, resolvi que teria apenas o Surfadelica como banda surf. Em fevereiro de 2007 gravamos na primeira sessão do Surfadelica uma música minha, “Surf Me To The Moons Of Saturn”, com a finalidade de inaugurar nosso perfil no MySpace. Alem disso, já havia um convite para o Los Tornados para participar de uma coletânea de bandas para a Cordelia Records da Inglaterra. Como o Los Tornados já era, fizemos, então, com o Surfadelica uma cover instrumental da música do Kaiser Chiefs, “The Modern Way”. Finalizando a história do Los Tornados: das três canções que foram registradas, escolhi uma, “Gypsy Surfer” para fazer parte da coletânea portuguesa Brazilian Surf A-Go-Go, The Attack Of the Tiki Waves Vol.1. Da segunda sessão de gravações do Surfadelica saiu a “Questionable Navigation”, que é a contribuição do grupo para a mesma coletânea. Assim eu tenho duas músicas com duas bandas diferentes na mesma coletânea! Acabamos de receber o vinil, um trabalho realmente fantástico, capa elaborada, com encarte, além de ser uma mostra realmente bastante abrangente da cena surf brasileira.

capa da coletânea Brazilian Surf A-Go-Go, The Attack Of the Tiki Waves Vol.1Pergunta: - Por que a coletânea Brazilian Surf A-Go-Go, The Attack Of the Tiki Waves Vol.1 está sendo lançada apenas em Portugal? Não é um contra-senso?
Carlos Nishimiya: -
Essa coletânea foi um projeto bolado pelo Gabriel, do Autoramas. Como o Autoramas tem seus discos lançados na Europa pela Groovie Records ficou mais fácil pensar em lançar por lá uma coletânea que desse a dimensão da cena de surf music brasileira. Realmente é um disco para um público internacional, já que existem algumas coletâneas lançadas aqui que tem o mesmo propósito, como é o caso das coletâneas lançadas pela Reverb Brasil. Mas o grande barato mesmo é poder ter um disco em vinil e poder atingir um público fora do Brasil. (Nota do editor: algumas cópias desse disco estão à venda na loja Sensorial Discos de São Paulo pelo telefone (11) 3333-1914).

Carlos e Fernando Naporano com o Maria Angélica, nos anos 80Pergunta: - Ao mesmo tempo em que está no Surfadelica, você toca com o Los Tornados, Kid Vinil Xperience, está tentando reativar o Maria Angélica, tem o Punk Beatles e entrou recentemente para o Continental Combo. Há tempo para todos? Esqueci de algum projeto?
Carlos Nishimiya: -
Como disse antes, no momento já não tenho mais atividade com o Los Tornados. Nosso único registro já foi lançado, ainda tenho duas gravações inéditas. Talvez disponibilize para download ou alguma outra coletânea em alguma época futura. Quanto ao Maria Angélica tenho discutido com o Fernando Naporano o lançamento de uma compilação de material inédito. Temos dezenas de faixas gravadas em demos, shows ao vivo, outtakes do primeiro disco, muita coisa inédita mesmo. O tempo todo ouço falar que os discos originais serão relançados em CD. Para nós, isso não tem interesse algum. Nunca ganhamos um centavo com isso, o selo nunca nos entregou as fitas master, não temos direito algum sobre o material. Culpa nossa, muita ingenuidade em não termos pensado no futuro. Assim se esses discos (Outsider, especialmente), forem lançados em CD serão com nossa total desaprovação. O Fernando está muito atarefado no momento e com vários problemas familiares, sem tempo ou foco para "mariangelicar", mas a possibilidade, segundo ele, jamais está descartada.


Kid Vinil Xperience em recente show em GoiâniaO Kid Vinil Xperience continua, faço shows pelo Brasil com o Kid há pelo menos 15 anos. Muitas vezes os promotores dos shows anunciam como Magazine. Tudo bem Kid = Magazine. E nossos shows são sempre legais, energéticos e mostram que o repertório original do Magazine continua bem vivo e relevante. Estamos compondo material novo, mas em passo muito mais lento que o Surfadelica, porque a agenda do Kid é bem cheia. O Punk Beatles hiberna, mas na verdade, é outro projeto inacabado. Infelizmente, o vocalista saiu logo após termos gravado todas as bases de um disco inteiro. Em essência só faltam os vocais. Mas não tenho, no momento, vontade de retornar a esse material, apesar da idéia ser muito, muito legal mesmo, acho que não conheço nenhum grupo com essa nossa proposta. Parece muito pretensioso, mas é verdade.

Continental ComboQuanto ao Continental Combo estou felicíssimo por estar tocando com uma das melhores bandas brasileiras. Já gravei algumas faixas, que estarão no novo disco da banda, que deverá se chamar A Vida É Um Mistério.

Entrei num momento onde a maioria das faixas já estava acabada, mas pude dar um toque a mais em algumas. Devo dizer que acho que o segundo álbum será ainda melhor do que o primeiro, que considero um dos melhores discos de bandas brasileiras contemporâneas.

Além disso, o Continental se dedica, esporadicamente, a projetos como esse show tributo aos Byrds, uma das grandes influências que temos.

 

Pergunta: - Há público para o tipo de som do Surfadelica? Ele fica mais restrito à São Paulo ou vocês fazem shows em outros estados?
Carlos Nishimiya: -
Ainda não consigo responder a essa pergunta porque não fizemos nenhum show até agora. Minha postura, desde o início, é que primeiro teríamos o disco de estréia lançado para só então começarmos a fazer shows. Claro que isso não é uma regra estrita, pode ser que façamos alguma coisa em algum local pequeno para sentirmos como a música flui num ambiente de show. Quanto à existência de público, posso falar um pouco pela minha experiência com o Los Tornados. O Los Tornados fez, em sua existência, mais de 50 shows, o que não é pouco para uma banda que não tem vocais. Claro que os locais são mais limitados, o público mais seleto, mas acho que existe um grande interesse no estilo pela quantidade de bandas que estão na ativa, incluindo as que estão fazendo sucesso internacional como o Dead Rocks, Estru’mental e os próprios Autoramas (apesar deles não serem estritamente surf). Já temos o convite para participarmos da próxima edição do Primeiro Campeonato Mineiro de Surf em 2008. Provavelmente estaremos lá.

Pergunta: - A música de vocês mistura a surf com psicodelismo, grunge e shoegazer. Como arregimentar tantos estilos díspares? E quais são as maiores influências de vocês?
Carlos Nishimiya: -
Bem, posso falar por mim, a mescla é simples, vem de tudo que sempre ouvi. Quando tenho uma idéia penso logo em que poderia fazer para soar mais original. Realmente uma de nossas canções se apropriou do esquema de dinâmica alta/baixa do grunge e ao mesmo tempo conserva seu sabor de surf music. Penso que a surf music vive um momento conservador. Muitas bandas ou fazem o som limpo e claro característico dos Shadows ou misturam com punk e o metal, usando só guitarras sujas. Por isso minha idéia era usar coisas que sempre tive em mente, sempre gostei dos solos psicodélicos de Hendrix, Jefferson Airplane, Bevis Frond. E sempre fui fã de Ride, My Bloody Valentine e outros shoegazers. Então porque não utilizar elementos que já estão no meu subconsciente mesmo? Mas no fundo isso tudo é um pouco o verniz por cima de tudo. O essencial mesmo é a composição, a canção, a melodia e a harmonia.

Pergunta: - Como estão as gravações do primeiro trabalho? Ele sairá por onde, será em vinil ou cd?
Carlos Nishimiya: -
No momento estamos com 8 músicas prontas para o disco de estréia, provavelmente serão 11 ou 12. Essas oito faixas já estão em diferentes estágios de finalização, duas outras bases estão gravadas e esperando eu colocar minhas guitarras. Daí falta gravar apenas mais uma ou talvez duas faixas para encerrar o disco e remasterizar. Nosso trabalho foi todo feito no estúdio Quadrophenia do Sandro Garcia do Continental Combo. Já fechamos o lançamento do disco com uma gravadora que ainda não posso revelar no momento. Está acertado que o lançamento deve ser até março de 2008. E os nossos planos incluem lançar um single em vinil logo após o CD. O legal também é que já estamos começando o trabalho no repertório do futuro segundo disco. Quem sabe já tenhamos o material pronto pela época em que estivermos lançando o primeiro.

Além disso, gravamos outras contribuições, uma delas, bem diferente do nosso estilo normal, uma cover de “Ocean” para um tributo brasileiro ao Sebadoh. No futuro estaremos contribuindo para uma coletânea italiana com um cover do Pink Floyd. Assim estamos revezando os ensaios e gravações entre as faixas para o debut e mais material para ser usado em coletâneas e futuros singles em vinil.

Pergunta: - No seu perfil do orkut você diz que é adepto ao RIP, rock impopular brasileiro. Pensando nisso, é possível viver de música?
Carlos Nishimiya: -
É uma velha piada...R.I.P., rest in peace ... Na verdade, só vivem de música os medalhões consagrados pela mídia e os empregados deles. O que eu faço é por mim mesmo e pelo amor que tenho pela música.

Saem dos nosso bolsos o dinheiro para ensaiar e gravar, para divulgar, o tempo que usamos na internet para propagandear nosso trabalho e quando chegar a época, bancar o custo de lançamento de nosso CD. Isso sem falar nos gastos com instrumentos, amplificadores e pedais e a manutenção dos mesmos. Para mim, se pudermos ganhar o suficiente para podermos continuar gravando e lançando disco está ótimo.

Pergunta: - Qual é a média de downloads das músicas da banda no My Space?
Carlos Nishimiya: -
Zero, porque não estamos disponibilizando ainda downloads grátis. Mas temos mais de 1300 amigos em nosso perfil, mais de 5000 visitas, muitos contatos foram feitos, muitos gostaram do som da banda, o que me faz extremamente feliz. Já temos músicas rolando em rádio em Portugal e logo, logo em programas nos USA e Europa. Quem quiser pode colocar o Surfadelica no seu playlist particular na Last.FM. Posso dizer que grande parte do nosso sucesso se deve ao MySpace, onde encontrei muita gente bacana, além de poder encontrar velhos ídolos, como Judy Dyble (ex-Fairport Convention, Trader Horn e Giles, Giles & Fripp).

Pergunta: - Você é o principal compositor, além de produtor e líder do grupo. O que mais te estimula?
Carlos Nishimiya: -
No Surfadelica sou o único compositor. Produzo o grupo porque eu sei melhor do que ninguém como o som deve ser. Mas ainda bem que posso contar com o auxílio inestimável do Sandro Garcia, líder do Continental Combo e engenheiro de som extraordinaire. Todas as etapas são estimulantes, mas a parte da composição e feitura das demos é a mais exaustiva. Mas gravar demos traz efeitos imediatos para a banda. Já adianta muito para passar aos outros músicos o que você quer. Eu gravo só com a guitarra, mas tento imitar linhas de baixo e elaboro as harmonias e melodias. É muito bom poder ouvir aquilo que você tinha em mente tomar forma e existir na realidade.

Pergunta: - Como anda seu lado produtor? Você já produziu algum outro artista que não alguma banda sua?
Carlos Nishimiya: -
Produzi, sim, uma banda no ano passado, o Deuces. Pena que os garotos não lançaram o disco. Deu um baita trabalho e eles acabaram não lançando, acho, por falta de grana. Gostaria de ser chamado mais para fazer isso, o estúdio é um habitat natural para mim. Depois da experiência de produzir o disco do Magazine, Na Honestidade, em 2002 adquiri o vício. Agora eu sou o produtor de todas as músicas onde gravo. Com exceção da minha participação em uma das músicas do disco de estréia das Lunettes, uma banda garage de Campinas, que deve ter seu disco lançado pela Scatter Records da Argentina no final deste ano. Fiz um solo de fuzz na faixa “Magic Fingers”.

Pergunta: - Deixe uma mensagem para os fãs. Valeu pela chance!
Carlos Nishimiya: -
Bem, eu sempre considero que não tenho fãs, mas sim, amigos. Eu agradeço o apoio constante que sempre recebo, como escrevi no MySpace, o Surfadelica é um sonho tornado realidade. Obrigado pela oportunidade de falar sobre meus sonhos!

Entrevista com Mitch Easter

  • Sep. 18th, 2007 at 8:10 PM


por Rubens Leme

texto originalmente publicado no site Mofo

Há exatamente cinco anos eu fiz uma coluna sobre uma banda chamada Let's Active, um grupo pouco conhecido, e que sempre foi um dos meus preferidos. Depois de tanto tempo e audição dos discos consegui encontrar o site oficial do líder da banda, Mitch Easter, um renomando produtor e que trabalhou, entre outros, com o R.E.M. A razão pela qual essa entrevista está na seção de colunas e não na mais apropriada é puramente subjetiva, até porque acho que Mitch merece ter sua história um pouco mais dissecada. Sendo assim...


Mitch não pára de maneira alguma. Um dos produtores mais requisitados na América, ele está lançando seu primeiro disco-solo, Dynamico, e encerrando um jejum de quase 20 anos sem gravar nada. Músico excepcional, passou (e ainda passa) muito tempo sentado em estúdios produzindo, sendo um dos motivos que teve pouco tempo para gravar músicas mais pessoais.

Mitch confessa que após o término do Let's Active imaginou que não teria problemas em conseguir um novo contrato para seguir sozinho. Descobriu que não era bem assim e seguiu a vida como seu estúdio e produzindo dezenas de artistas.

Mitch respondeu essas perguntas enquanto produzia os Baskervilles e as fotos da matéria foram retiradas do arquivo do site pessoal do entrevistado.


 

Pergunta: - Olá Mitch, obrigado pela oportunidade . Minha primeira pergunta é sobre sua antiga banda, o Let's Active. Como ela foi formada?
Mitch Easter: -
Oi Rubens. O Let's Active foi formado em 1981 quando eu e Faye Hunter nos encontramos com Sara Romweber. Sara era bem mais jovem do que nós e vivia em uma outra cidade, mas sabíamos que seria perfeita para o grupo. Nós a convidamos para tocar conosco porque ela tinha participado de uma banda um pouco famosa chamada Mondo Combo, que tinha um pouco de influência de ska.

Pergunta: - Você construiu uma carreira paralela como produtor. Isso foi bom ou ruim para o Let's Active?
Mitch Easter: -
Bem, alguns dos grupos que produzi fizeram algum sucesso e isso acabou chamando a atenção para o meu nome e para a banda. Então, penso que foi uma coisa boa.

Don Dixon e Mitch durante as gravações de ReckoningPergunta: - Como foi trabalhar com o R.E.M?
Mitch Easter: -
Eles me chamaram porque Peter Holsapple havia me indicado e porque estavam procurando um estúdio para gravarem seu primeiro single. Nos divertimos muito gravando-o (Radio Free Europe), assim como gravando Chronic Town, quando tentamos algumas experiências. Nessa época já haviam assinado com a IRS e já tinham alguma popularidade e a gravadora tinha outros nomes para a produção, embora tenham perguntado ao grupo sobre quem queriam para a função. Aconteceram dois "testes"; um com outro produtor e outro comigo e com meu amigo Don Dixon. A banda gostou muito mais de nós e acabamos fazendo o disco Murmur de maneira bem rápida, bem como Reckoning. Cada um levou, em média, três semanas. Estávamos bem satisfeitos e fiquei chocado quando Murmur ganhou város elogios e foi eleito o disco do ano pela Rolling Stone. Foram ótimos dias: a banda se divertiu muito, eu também e o público amou. Ficamos bem perto da perfeição.

Pergunta: - Você tem seu próprio estúdio?
Mitch Easter: -
Sim, desde que comecei a trabalhar em 1980. O nome original era Drive-In Studio, mas em 1999 eu abri um melhor, o Fidelitorium Recordings. Ele tem um site caso queira conhecê-lo.

Pergunta: - Recentemente conversei com Scott Miller e ele me disse que você o ajudou a mexer com o programa Pro Tools. O que você pensa sobre essas novas tecnologias?
Mitch Easter: -
Hum... há algo errado aí. A última vez que encontrei Scott não falamos sobre Pro Tools. Em um dos discos do Loud Family eu emprestei uma máquina ADAT para que fizesse algumas coisas em sua casa, mas isso foi no início da década de 90. Gravar em casa é genial, desde que você tenha gravado algo realmente bom e porque te dá mais tempo de você pensar com mais clareza. O único problema é pode-se perder um pouco do foco e achar que pode reproduzir em um computador tudo o que é realizado num bom estúdio, o que, obviamente, não é verdade e por essa razão nem todos os músicos devem fazer isso. Alguns sabem trabalhar com o equipamento, mas para alguns é um verdadeiro obstáculo. Eu acho que há ainda uma grande importância nesse ambiente mais tradicional de um estúdio e por isso acho que sempre teremos alguns deles por aí, embora reconheça que as gravações caseiras têm diminuindo o uso deles. Eu gosto de trabalhar em um ambiente mais humilde, mais "caseiro" e vejo com tristeza que grandes e famosos estúdios estão desistindo do negócio.

capa do disco DynamicoPergunta: - Me fale um pouco do seu primeiro disco-solo, por favor...
Mitch Easter: -
Bem, depois que o Let's Active terminou em 1990, eu não sabia o que fazer com as canções que eu havia escrito. Na verdade, a maioria das novas composições hoje em dia são feitas por pessoas jovens escrevendo sobre coisas atuais e eu não sou mais jovem. Continuei escrevendo minhas canções e nos últimos anos percebi que não precisava me preocupar em lançar um disco por um grande selo, porque as pessoas, nos dias de hoje conseguem obter música de várias maneiras e também porque percebi que gosto de escrevê-las. Então, no último verão tive um tempo livre para mixá-las e decidi eu mesmo lançar meu CD para ver o que acontecia. Quero tocar mais pelo país, fazer mais shows e ter um CD faz todo o sentido. Dynamico está indo bem então acho que valeu a pena fazê-lo.

Pergunta: - Sempre foi difícil comprar discos do Let's Active e em 2002 ou 2003 os álbuns saíram em CDs. Ainda assim são discos difíceis de serem obtidos. Por que?
Mitch Easter: -
Acho que é culpa da IRS Records que não tem uma distribuição internacional eficiente em muitos locais, pois se concentram mais na América e no Reino Unido, o que considero um erro.

Pergunta: - Você sabia que a banda é conhecida no Brasil?
Mitch Easter: -
Não e estou surpreso, porque acho que nosso trabalho jamais foi lançado na América do Sul.

Pergunta: - Depois de tanto tempo há ainda algum artista com quem você sonha em trabalhar?
Mitch Easter: -
Eu gosto de trabalhar com um certo tipo de pessoa, pessoas com uma proposta bem particular. Não tenho interesse em fazer grandes discos comerciais. Me interesso por coisas diferentes. É claro que uma vez estando nesse ramo de atividade, gravo várias coisas e algumas acabo gostando mais do que outras.

Pergunta: - Poderia me dizer seus cinco artistas favoritos e cinco discos?
Mitch Easter: -
Ah, isso é impossível! Gosto de muita coisa e isso muda constantemente. Eu gosto muito dos anos 60, mas, por exemplo, ontem vi uma entrevista com Lalo Schifrin, e gosto muito do que ele fez, assim como outros compositores para o cinema, como Ennio Morricone, além de jazz moderno, música eletrônica. Ultimamente estive ouvido o Genesis com o Peter Gabriel - Nursery Cryme e Foxtrot - o que poderá ofender os amantes do pop. Eu também amo o Family, uma banda britânica dos anos 60, Roxy Music, Bowie, várias bandas punks dos anos 70... é muita coisa.

Pergunta: - Obrigado pela entrevista, Mitch e deixa uma mensagem aos fãs...
Mitch Easter: - Eu que agradeço a chance e quero agradecer a todos que ouviram meus discos. Por favor, nos fale sobre as novas bandas brasileiras. Seria excitante conhecê-las!

 

por Rubens Leme

Uma parceria pedida há anos pelos fãs Loud Family e Anton Barbeau finalmente viu a luz do dia. Juntos, Scott Miller e Anton fizeram um disco sensacional, onde a liberdade é a principal ferramenta.

Anton revelou que se divertiu muito com o disco, especialmente na companhia de seu velho amigo. A base das canções, foi gravada em Sacramento, no Hangar, onde gravaram voz, baixo e bateria. Enquanto Anton, viajava para a Inglaterra, Scott trabalhou nelas usando Pro Tool com a ajuda de Mitch Easter, já que desconhecia o programa.

O disco abre com uma surpreendente versão de "Rocks Off", faixa de abertura do clássico álbum duplo dos Rolling Stones, Exile on Main St., lançado em 1972. E nessa faixa, já há uma curiosa revelação: Anton confessa que não conhecia a canção e nem o disco: "foi uma idéia de Scott. Não conhecia o disco e, sinceramente, não sei se gostei dele. Mas Scott sempre teve uma grande habilidade em fazer covers."

A segunda canção é "Song About 'Rocks Off", uma brincadeira. A coisa começa a ficar séria em "Pop Song 99", talvez um parente mais velho de "Pop Song 89", do R.E.M. Grande canção e com, ao menos, um verso memorável: "the problem with the kids today is that they dont care about magic". Sobre isso, fala Anton: "eu escrevi essa canção no meio da década de 90 por acreditar em mágica, e a música pop é uma das maneiras mais fáceis de encontrá-la. Basta que você ouça Beatles ou Mutantes ou quem faça uma música transformadora, transcendental; isto tem a ver com a alma, mas não acho que existam muitas pessoas assim, hoje em dia."

A quarta música é uma excelente composição de Scott, "Total Mass Destruction". A primeira grande parceria dos dois no disco acontece em "(Kind Of) In Love". A próxima, "Mavis of Mabeline Towers," é segundo Anton, a favorita de muitos ouvintes e foi escrita em um dia e gravada no próximo, mostrando a habilidade de Scott, que impressionou até mesmo o prolífico Barbeau.

O disco ainda conta com uma bela versão de "I Think I See The Light", de Cat Stevens e fecha com a faixa-título. Como bônus, constam mais duas faixas extras: "Don't Bother Me While I'm Living Forever" e "I've Been Craving Lately". A primeira é de Scott e a segunda de Anton.

E a parceria não acaba por aí. Na verdade, ela só deu tempo, já que Scott foi pai pela segunda vez. Enquanto isso, Anton lançou um novo disco, dessa vez em parceria com Su Jordan e que, em breve, será resenhado aqui.

Veja as faixas e quem tocou nelas:

Faixas

Rocks Off (Mick Jagger/Keith Richards)
Scott: vocals, guitar, sample keyboards
Anton: vocals, Hammond organ
Kenny Kessel: bass
Jozef Becker: drums

Song About "Rocks Off" (Scott Miller)
Scott: vocals, guitar
Anton: backing vocals, Hammond organ
Kenny Kessel: bass
Jozef Becker: drums

Pop Song 99 (Anton Barbeau)
Anton: vocals, Wurlitezer, Farfisa
Scott: backing vocals, guitar
Kenny Kessel: bass
Jozef Becker: drums

Total Mass Destruction (Scott Miller)
Scott: vocals, guitar, organ
Anton: acoustic piano, Microkorg
Kenny Kessel: bass
Jozef Becker: drums
Kristine Chambers: backing vocals

Flow Thee Water (Anton Barbeau)
Anton: vocals, drums, bass, acoustic guitar
Scott: backing vocals, electric guitar
Steve Randall: electric guitar
Dave Middleton: electric guitar
Julie Meyers: Farfisa

Remember You (Chris White)
Scott: vocals, guitar, piano
Anton: vocals, organ
Kenny Kessel: bass
Jozef Becker: drums

(Kind Of) In Love (Scott Miller/Anton Barbeau)
Scott: vocals, guitar
Anton: backing vocals, Wurlitzer, tambourine
Kenny Kessel: bass
Jozef Becker: drums

Mavis of Maybelline Towers (Scott Miller)
Scott: vocals, guitar, piano
Anton: backing vocals, shaker
Kenny Kessel: bass
Jozef Becker: drums

I Think I See the Light (Cat Stevens)
Scott: vocals, guitar
Anton: vocals, Korg MS-10/Roland Space Echo
Alison Faith Levy: piano, backing vocals
Gil Ray: percussion
Kenny Kessel: bass

What If It Works? (Anton Barbeau)
Anton: vocals, Hammond organ, Micromoog, Arp Odyssey, Korg MS-10, acoustic guitar
Scott: backing vocals, acoustic and electric guitar
Kenny Kessel: bass
Jozef Becker: drums

Bonus tracks:

Don't Bother Me While I'm Living Forever (Scott Miller)
Scott: vocals, guitar, bass
Anton: backing vocals, Arp Odyssey, Novation X-Station, Wurlitzer
Larry Tagg: bass
Jozef Becker: drums

I've Been Craving Lately (Anton Barbeau)
Anton: vocals, acoustic guitar, percussion, acoustic and anti-acoustic pianos, Novation X-Station
Scott: backing vocals, electric guitar, Waldorf MicroWave
Larry Tagg: bass
Jozef Becker: drums

Volume 7 - Violeta de Outono

  • Aug. 18th, 2007 at 7:51 AM

por Rubens Leme

"Há muitos anos sonho com esse disco."

Foi assim que Fabio Golfetti, voz, guitarra, produtor e líder do (agora quarteto) Violeta de Outono definiu o novo disco do grupo, Volume 7.

Apesar de ser considerado o sétimo disco do grupo, Fabio considera-o como se fosse o segundo, já que em sua visão apenas o primeiro disco pela extinta Plug (Violeta de Outono) foi pensado como um disco. "Até o Em Toda Parte já foi meio fragmentado, pois aproveitamos composições antigas. Esse disco novo foi ensaiado durante bastante tempo e gravado de uma maneira ideal", completa.

A primeira constatação é que o Violeta não é o mesmo. Saiu a formação clássica de trio entrando um quarteto. Com a volta do baterista Claudio Souza e das entradas do baixista Gabriel Costa e do tecladista Fernando Cardoso, o grupo deu uma guinada ao rock progressivo, especialmente o de "Canterbury", a grande influência de Fabio.

Essa influência pode ser notada logo na capa: a foto-montagem é uma brincadeira com a capa do primeiro álbum do Soft Machine; a cor é tirada do Third, disco também do Soft; o número "7" é influencia direta do Fourth, do mesmo grupo; mas o som está mais para Caravan e Camel.

Mas nem todo ele: o disco abre com "Além do Sol", uma pequena variação de "Línguas de Gato em Gelatina" e com um belíssimo solo de guitarra no final, que remete um pouco a Santana. Fabio disse que esse solo foi construído a partir de um pequeno tema inspirado na guitarra durante os ensaios.

A partir da faixa 2, destacam-se os lentos e bonitos solos de Hammond e o grupo mostra uma incrível coesão. A diferença para o disco anterior, Ilhas, é latente. Enquanto o trabalho anterior foi feito aos pedaços, juntando várias gravações e tendo pouco tempo para gravar a bateria, por exemplo, Volume 7 foi gravado cuidadosamente ao vivo em dois dias no estúdio Mosh - 11 e 12 de abril. "Nós só deixamos meus vocais e alguns sons de piano para depois, mais para acertar os timbres", conta Fabio.

Assim, "Caravana", a faixa 2, é um tributo ao grupo inglês Caravan. A seguir duas faixas compostas pelo guitarrista Fernando Alge (não confundir com o tecladista Fernando Cardoso): "Broken Legs" e "Eyes Like Butterflies", que está presente no DVD do grupo gravado com a Orquestra Sinfônica da USP.

A quinta faixa "Em Cada Instante", parceria de Fabio com Fernando Cardoso mostra climas envolventes. A sexta, "Pequenos Seres Errantes" é quase uma longa suíte instrumental soturna, com vocais esparsos de Fabio, que a dedicou à seu mentor, Daevid Allen.

"Ponto de Transição" é a faixa mais curta e talvez "pop" do disco. "Sete é o retorno/ Segue o curso do céu", canta Fabio. O disco se encerra com a longa "Fronteira", a que mais possui influência do Soft Machine. Longa improvisação no teclado, mudanças no andamento e belo entrosamento entre os membros.

O disco é outro lançamento da Voiceprint e também pode ser adquirido pelo site do grupo.

Faixas

1. Além do Sol
2. Caravana
3. Broken Legs
4. Eyes Like Butterflies
5. Em Cada Instante
6. Pequenos Seres Errantes
7. Ponto de Transição
8. Fronteira
EXTRA: Videoclip (MPG)

Morre Tony Wilson, fundador da Factory

  • Aug. 17th, 2007 at 1:20 PM

por Rubens Leme e Pedro Damian
Às vésperas do lançamento do filme Control - inspirado na vida de Ian Curtis, e que chegará aos cinema da Europa no dia 12 de setembro -, o mundo perde o fundador da Factory e um dos maiores fãs do Joy Division: Tony Wilson.

Wilson ficou famoso por criar a gravadora Factory, que deu ao mundo Joy Division, Cabaret Voltaire, Durutti Column, New Order entre outros.

Dono de uma personalidade forte e criativo, Tony foi um dos maiores ícones da música pop inglesa e parte da sua vida foi contada no filme 24 Hours Party People, que no Brasil recebeu o título A Festa Nunca Termina.

Tony Wilson também foi um dos fundadores do clube Haçienda, junto com o New Order, que acabou falindo posteriormente.

Tony sofria de câncer renal e foi internado às pressas em 2006, quando teve a doença diagnosticada e um rim extraído. Sem dinheiro, Tony não tinha como bancar o caríssimo tratamento de 3.500 libras mensais para comprar o remédio Sutent e morreu no último dia 10, aos 57 anos.

R.I.P., Tony.