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The Gilbertos - entrevista

por Rubens Leme

postado originalmente no site Mofo

Aos 52 anos e com passagens pelo Smack, Fellini e Voluntários da Pátria, Thomas Pappon é mais um músico brasileiro que se mudou para a Europa há décadas, onde vive uma vida pacata com a família, o emprego na BBC e ainda mostra dotes de chef. Mas, Thomas não consegue largar a música, especialmente aos sábados quando tira umas horas para escrever novas canções. Longe da badalação e dos velhos amigos, Thomas desenvolve há quase 15 anos um projeto próprio, de nome The Gilbertos com três discos independentes lançados e atualmente com a colaboração do baixista Akira S.


Por isso achei bem interessante entrevistá-lo para falar de seu projeto, infelizmente desconhecido da maioria das pessoas e saber mais detalhes das gravações, shows, gravações, etc.

Saibam ainda que é possível encontrar os CDs em várias lojas, inclusives nas Americanas da vida e a preços bem acessíveis. Assim sendo, conheça um pouco mais da vida de Thomas e dos Gilbertos.

Mofo: - Thomas fale como surgiu a ideia dos Gilbertos? Imagine que seja uma brincadeira com João, Astrud e Gil, não?
Thomas Pappon: - Foi. Queria um nome que desse uma dica do som, pelo menos para o público europeu. Quem ouve a palavra 'Gilberto' aqui pensa na Astrud, no Brasil, em bossa nova...com o 'The' na frente parece meio coisa de conjunto de rock.

Acho que funcionou...o único problema é que muitos acham que fazemos só bossa nova.

Mofo: - Há alguma semelhança entre os Gilbertos e o Fellini ou mesmo o Smack?
Thomas Pappon: -
Com o Fellini, sim, muito. Minha voz e estilo são diferentes do Cadão e - ao contrário dele - sofro demais para fazer letras. O Fellini sempre será uma inspiração. Não podemos esquecer que a nova formação dos Gilbertos tem um baixista de identidade bem própria, o Akira.

(capa do primeiro disco, Os Eurosambas 1992-1998)

Mofo: - Fale um pouco do lançamento dos 3 cds, como você os planejou, lançou, etc...
Thomas Pappon: - O primeiro álbum é praticamente uma coletânea de 'singles', de demo tapes que compus ao logo de 6 ou 7 anos, com a ideia de enviá-las para rádios européias, cada uma gravada em momentos, cidades, países e condições distintas.

O segundo é o primeiro álbum propriamente dito, concebido num mesmo período e mesmo lugar (minha casa em East Dulwich Londres, onde morava), com um conceito em mente, de fazer algo meio folk e MPB, tipo Led Zepplin III combinado com o Clube da Esquina (Milton Nascimento).

O terceiro é o disco 'raiz', inspirado no rock anos 70 e 80, na São Paulo da minha adolescência, na Pompéia e na USP. Os dois primeiros são mais eletrônicos, tem teclados e os ritmos são sampleados ou programados, fiz tudo sozinho. Eles foram lançados pela midsummer madness, do querido Rodrigo Lariu. O último tem bateria de verdade, gravada na garagem de casa (na minha casa atual, em North Dulwich), e tem o Akira fazendo os baixos. Foi lançado pela Pisces.

Mofo: - Você grava em lo-fi e continua morando na Europa. Há shows por aí ou o grupo acaba sendo um hobby?
Thomas Pappon: - Hobby total. Só fizemos shows uma única vez, em julho/agosto de 2011, todos em São Paulo.

(capa dos discos, Deite-se Ao Meu Lado e À Noite Sonhamos)

Mofo: - Você mistura folk, violões e tem um clima até bossa nova. Mas ele parece mais ser "culpa" do canto mais intimista do que sonoro. É isso mesmo?
Thomas Pappon: -
Humm, talvez. Gosto demais do som do violão, pena que não sei tocar usando palheta, ficaria mais folk, e menos bossa. O som é bossa por causa disso, por que toco violão de nylon, estilo samba, e não rock. No último disco a coisa mudou um pouco, por causa das guitarras. Ficou um rock-samba mais 'shuffle'.

Mofo: - Nos anos 80, tínhamos ditadura, uma abertura lenta, mas uma cena independente ativa, forte, e mesmo não vendendo muito discos, havia espaço. Hoje temos liberdade, internet, mas a cena independente parece bem menos consistente do que há 30 anos, com menos casas interessadas, veiculação zero em AMs e FMs. O que vc acha que aconteceu?
Thomas Pappon: -
Não sei. Os últimos discos do Fellini (Você nem Imagina) e dos Gilbertos (À Noite Sonhamos), ambos do início de 2011, passaram em brancas nuvens. Ninguém deu bola, nem blogs comentaram, não tocou em rádio alguma. Fiquei bem chocado, estava acostumado com alguma forma de feedback, mesmo que discreta.

Imaginei que os fãs fossem criar um auê, o que não aconteceu. E são dois discos geniais, cheio de ideias, molho, rock'n'roll. Ninguém ficou sabendo que os discos saíram, uma tristeza - depois de todo esse trampo. Me parece que o interesse do público, mesmo o 'alternativo', depende hoje, basicamente, de clipes virais no YouTube.

Mofo: - Os 3 discos da banda são extremamente diferentes de qualquer coisa que se faz por aqui. Você se sente ligado a alguma cena ou acha que navega só?
Thomas Pappon: -
Sou um tiozinho de 52 anos que fica tocando violão e cantando em casa, nos fins de semana, compondo e planejando gravações caseiras. Ouço música, leio livros e quadrinhos e vejo TV de montão. That's it.

(Akira e Thomas)

Mofo: - Você pensa em voltar pro Brasil, fincar raízes e voltar ao meio musical ou isso é utopia?
Thomas Pappon: - Putz... não penso mais em voltar ao Brasil. Meus filhos são praticamente ingleses e não quero ficar longe deles. Mas se tem algo que sinto falta é tocar com banda, coisa que só faço quando vou ao Brasil. Adoro o pessoal do Fellini, do Smack, dos Voluntários, são todos queridos amigos, todos incrivelmente talentosos e gosto demais de tocar com todos eles.

Mofo: - O que é música para você, hoje em dia? Qual o espaço dela na sua vida? Com que regularidade você compõe?
Thomas Pappon: - Trabalho durante a semana, dou duro lá na BBC, chego em casa, cozinho pra familia (ouvindo música), todo dia. No sabado de manhã, passo umas boas duas horas tocando violão e compondo. Música, cinema e comida (+ maconha e cerveja) são tudo para mim no fim de semana. Sim, sou um hippie velho que adora música.

Mofo: - Deixe uma mensagem aos fãs.
Thomas Pappon: -
Alguém quer ver o show do Family, em fevereiro, no Sheperds Bush Empire, comigo?

Discografia

Os Eurosambas 1992-1998 (1999)
Deite-se Ao Meu Lado (2004)
À Noite Sonhamos (2011)

Dexys - One Day I'm Going to Soar

por Rubens Leme

Se virou carne de segunda a volta de bandas dos anos 80 à caça de um dinheiro extra para a aposentadoria com shows, é preciso tirar o chapéu quando alguns voltam não apenas para apresentações, mas com um novo disco.

E assim foi com o Dexys, ex-Dexys Midnight Runners. Kevin Rowland simplificou o nome mas manteve o padrão artístico lá em cima.

Resultado? Disco do ano, fácil.

One Day I'm Going to Soar foi editado 27 anos após o antológico Don't Stand Me Down.

Mr. Rowland, obviamente, mexeu e aconteceu na formação, buscando o tecladista original Mick Talbot (famoso pela parceria com Paul Weller no Style Council) e mostrou aos mais novos como se faz música.

E não é só isso: Kevin resolveu expôr as vísceras falando de relacionamentos - "Incapable of Love" - incertezas - "Lost"- ou fazendo baladas tão sensuais ("She Got a Wiggle") que não será loucura se Al Green regravá-la em algum momento.

Por isso, animem-se 2012 já está salvo, mesmo que o mundo acabe. E, diferente dos seus contemporâneos, o Dexys não lota teatros mundo afora com seus clássicos do passado.

Isso é pouco para Kevin. Ele queria mais, mostrar que está vivo e chutando e ainda tem lenha para queimar.

One Day I'm Going to Soar é a prova disso. E que venha outro disco, mas antes de 2039, por favor.

Faixas

01. Now 6:47
02. Lost 3:00
03. Me 4:17
04. She Got a Wiggle 4:27
05. You 3:32
06. I'm Thinking of You 7:02
07. I'm Always Going to Love You 5:38
08. Incapable of Love 5:29
09. Nowhere Is Home 4:57
10. Free 3:44
11. It's O.K. John Joe 7:54

The Bevis Frond - The Leaving of London

por Rubens Leme

Após gravar Hit Squad, em 2004, Nick Saloman se sentiu cansado do meio musical. Sem tesão para gravações, shows, enfrenteu ainda a morte de sua mãe, vítima de um câncer terminal.

Após tantos dramas, resolveu vender sua casa em Londres (daí o título do disco), por onde viveu 30 anos, se mudou para Hastings, com a família e, em 2011, resolveu lançar o CD The Leaving of London.

E os 7 anos de intervalos fizeram bem, pois o álbum mostra que Nick jamais perdeu a mão para grandes composições, ótimas estórias, riffs grudentos e viagens delirantes.

Seguido a linha de seus últimos trabalhos, abandonou a linha mais lisérgica e de solos de guitarras delirantes por canções mais simples e direta. Nick argumenta que nos últimos discos tentou ser mais sincero e "não é possível ser sincero em uma música psicodélica". O resultado é excelente.

A mudança de Londres forneceu farto material para as letras. Há ainda uma linda homenagem a John Lennon, em "Warm Gun". No total, são 18 faixas que merecem ser ouvidas com calma e prazer.

A lamentar - eternamente, pelo visto - que mais uma pérola do Bevis Frond passe batida por aqui, coisa que os poucos fãs brasileiros nem se importam mais.

Faixas de destaque? Todas. Ouvir. E re-ouvir, re-re-ouvir, re-re-re-ouvir etc e torcer para que o Bevis não demore outros sete anos para lançar um novo trabalho...

Faixas

01. Johnny Kwango
02. Speedboat
03. An Old Vice
04. More To This Than That
05. The Leaving Of London
06. Hold The Fort
07. Why Have You Been Fighting Me?
08. The Divide
09. Reanimation
10. Stupid Circle
11. Son Of A Warm Gun
12. Barely Anthropoid
13. Testament
14. You'll Come
15. Preservation Hill
16. Heavy Hand
17. Too Kind
18. True North

Violeta de Outono - Espectro

por Rubens Leme

Espectro, o mais novo lançamento do quarteto paulistano Violeta de Outono talvez seja o primeiro disco da banda, em quase 30 anos de carreira, que soe exatamente como deve ser: um esforço conjunto de seus membros.

Em seus álbuns anteriores, o guitarrista, letrista, líder, arranjador Fabio Golfetti cuidava de quase todos os detalhes dos discos, assinando 95% das composições desde seu primeiro trabalho, o EP da Wop-Bop, de 1986.

A situação agora é diferente: das nove composições inéditas - 10 com a demo de "News from Heaven" - o atual quarteto traz algumas curiosidades. A primeira delas é a inclusão do lendário ex-baterista do grupo paulistano A Chave do Sol, José Luiz Dinóla.

Aliado a Fabio, o baixista Gabriel Costa e ao tecladista Fernando Cardoso, a banda agora possui quatro compositores e todos participam ativamente do processo. Por essa razão, a banda soa mais coesa e Espectro abandona as raízes oitentistas dos primeiros trabalhos rumo ao rock progressivo dos anos 60 e 70.

O disco abre com uma composição de Golfetti, "Formas Pensamento", um clássico exemplo do som que sempre fez a cabeça dos fãs da banda.

Gabriel Costa e Fernando Cardoso já tinham participado do último disco do grupo, o Volume 7, de 2007 e hoje sente-se bem mais a presença dos dois nas passagens sonoras.

Se a guitarra de Fabio era a grande marca do grupo, especialmente quando trio, em muitos momentos dá passagem para a competência musical de seus parceiros.

O som, aliás, continua bem próximo aos grupos de "Canterbury", a grande influência de Fabio.

Dinóla trouxe uma ótima injeção de criatividade e experiência. Fundador do A Chave do Sol, um grupo que fazia uma vibrante mescla de hard rock, jazz e pitadas de progressivo, assina a faixa-título, totalmente instrumental.

Todas as faixas, gravados ao vivo no estúdio paulistano Mosh, de São Paulo, entre março e abril de 2012, mostram inegável beleza, apuro técnico e carregadas de lirismo.

Um ótimo disco para se ouvir deitado, com fone de ouvido, sem ninguém para te atrapalhar, para que não se perca nenhuma nota de "Montanhas da Mente", "Claro Escuro (Fernando Cardoso)" e"Dia Azul".

Uma das mais belas músicas é a bela homenagem ao falecido tecladista e saxofonista Manito, grande músico com passagens pelos Incríveis e Mutantes; "Anos-Luz (Manito’s Dream)". Manito faleceu aos 67 anos, em 9 de setembro de 2011.

A faixa extra "News From Heaven" nada mais é, com poucas alterações, o mesmo instrumental e uma versão, em inglês, de "Formas-pensamento".

Faixas:

01. Formas-pensamento (Fabio Golfetti)
02. Montanhas da Mente (Fabio Golfetti)
03. Dia Azul (Gabriel Costa)
04. Ondas Leves (Fabio Golfetti)
05. Claro Escuro (Fernando Cardoso)
06. Algum Lugar (Fabio Golfetti)
07. Anos-Luz (Manito’s Dream) (Fabio Golfetti / Fernando Cardoso)
08. Espectro (José Luiz Dinóla)
09. Solstício (Fernando Cardoso)

Bônus:

10. News From Heaven

Músicos:

Fabio Golfetti : guitarra & vocal
Gabriel Costa : baixo
Fernando Cardoso : órgão Hammond, piano & synth
José Luiz Dinóla : bateria

Ópera Invisível

por Rubens Leme

O Invisible Opera of Tibet é um projeto paralelo de Fabio Golfetti, do Violeta de Outono, desde meados de 1980.

Nesse último CD - UFO Planante - a banda - Fabio (guitarra e voz); Gabriel Souza (baixo, e atual integrante do Violeta) e Fred Barley (bateria), desfilam cinco temas.

Esse é o primeiro tema do álbum e, embora em uma versão bem menor (no CD são mais de 27 minutos), percebe-se o talento e criatividade do trio.

Surfadelica - Search And Not Destroy

por Rubens Leme

Search And Not Destroy é o novo trabalho do trio paulistano Surfadelica, que mais uma vez, mistura, em doses generosas e com extremo bom gosto, surf music e psicodelia.

O segundo CD do trio formado por Carlos Nishimiya (guitarra), Carlos Rodrigues (baixo) e Fabio McCoy (bateria), possui 11 novas composições, todas de Nishimiya, que aumentou seu arsenal de riffs, mostrando que atravessa um ótimo momento.

Mesmo ocupado em outros projetos - Continental Combo e o Kid Vinil Xperience - o Surfadelica é a "menina dos olhos" do guitarrista e onde pode dar mais vazão ao seu imenso conhecimento musical e estilístico. Não é à toa que ele também assinou a produção do petardo.

O disco abre com "Space Age Surfin' Love Song", onde Nishimiya já começa a mostrar suas armas, com guitarras sobrepostas e uma bela melodia, meio triste.

"Surfer's Paradise" abre com uma sólida combinação baixo-bateria. A guitarra de Nishimiya vai construindo uma paisagem que cairia bem em um filme de David Lynch: escura e esparsa.

"Destination Unknown" dá uma boa ideia da coesão do trio, com uma guitarra sendo acompanhada de maneira precisa pela cozinha, ao mesmo tempo em que sola um pouco mais agressivamente do que as duas faixas iniciais.

"Lurking Behind The Asteroids" é uma canção mais lenta, talvez a mais "comportada" do disco, com mais raízes psicodélicas, como se tivesse sido gravada na San Francisco de 1967.

Mais ousados do que o disco anterior, apresentam um suíte, em três partes. Minha favorita é "Landscape I (Ice Cold Weather)", com um belo trabalho ao violão e uma etérea guitarra que leva o ouvinte a uma bela e delicada manhã fria. Delicada e sutil.

Outro destaque é a faixa que encerra o trabalho, "Morning Glass", que me fez lembrar uma cena de algum filme de Quentin Tarantino. Divertida e grudenta.

Gravado totalmente no estúdio Quadrophenia entre janeiro e agosto de 2010, teve o líder do Continental Combo, Sandro Garcia, no comando da parte técnica, masterização e apoio geral.

O disco pode ser adquirido através do site da banda ou escrevendo para contato@surfadelica.com.

Para quem gosta de rock instrumental e acha que há poucas opções interessantes no Brasil, o Surfadelica será uma ótima pedida.

Faixas

01. Space Age Surfin' Love Song
02. Surfer's Paradise
03. Destination Unknown
04. Lurking Behind The Asteroids
05. Trying To Get Back Home
06. The Voyage Suite: For Tomorrow
07. The Voyage Suite: Landscape I (Ice Cold Weather)
08. The Voyage Suite: Wavelength
09. The Limits Of Time And Space
10. Midnight Lightning
11. Morning Glass

Giuseppe Frippi - Desert Wind

por Rubens Leme

Discos de rock instrumental no Brasil são raros.

É um mercado difícil, que exige um público mais paciente, atento e que procura uma sonoridsade distante dos modismos vingentes. Mas há quem arrisque e consiga ótimos resultados.

Editado pelo selo inglês Voiceprint, Desert Wind é o primeiro trabalho solo do guitarrista Giuseppe Frippi, ex-membro dos Voluntários da Pátria, Akira S e as Garotas que Erraram, Alvos Móveis e do CO2.

O CD nasceu da necessidade de Frippi trilhar um caminho próprio, sem estar preso a um grupo.

Compondo desde 2007, Frippi entrou em estúido em 2009, com ajuda de grandes músicos, entre eles João Parahyba, membro do Trio Mocotó e que já emprestou seu talento para Toquinho, Ivan Lins, Cesar Camargo Mariano, Jorge Benjor, e do excepcional baixista Celio Barros.

Frippi resolveu misturar antigas influências - Robert Fripp, Bill Frisell, John Scofield, Jeff Beck, Frank Zappa, John McLaughlin, Jimi Hendrix, Santana, John Coltrane, Ravi Shankar, Don Cherry, etc - e a paixão por música oriental, psicodelismo, ambient music, progressivo e ritmos brasileiros.

"Após gravarmos em 2009, os temas foram mixados por Janja Gomes (filho do João Parahyba) e, em 2010 o trabalho entrou na fila da masterização do Omid Burgin (tinha ouvido alguns trabalhos anteriores dele e fiquei muito impressionado. Queria que fosse ele a masterizar). A master foi concluída em agosto de 2010. E só saiu esse ano", explica o músico.

Frippi explica que "queria inverter o processo de criação ao que estava acostumado em minhas parcerias e participações anteriores, que era o de definir o conceito do trabalho antes de começar a por a mão na massa. Neste novo contexto, os temas saíram espontaneamente sem um script definido e o resultado final foi muito satisfatório."

Ao se tornar artista 'solo' - embora não tenha feito tudo sozinho - Frippi pode mostrar todo seu talento e encontrar sua própria "voz".

Apesar de investir em ritmos brasileiros, curiosamente, nenhum título é em português.

"Como ele foi lançado pela Voiceprint, um selo internacional, me incentivou a não me ater a um limite geográfico ou lingüístico para dar nome às faixas (e, afinal, a presença do Brasil está muito viva na música)."

O disco abre com a bela "La Joie De Vivre", com a guitarra de Frippi viajando na percussão de Parahyba. Tema delicado e sutil. O título foi tirado de um livro de Emile Zola e também de um quadro do pintor espanhol Pablo Picasso.

O segundo tema, "La Milonga del Duende", é nas palavras do próprio músico, um tango "meio torto", "já que é em 7/4, mas tem aquele clima soturno portenho".

A faixa título é outra que merece uma atenção especial, e mostra (outro) belo trabalho de Parahyba e seu entrosamento perfeito com Celio Barros. A dupla, aliás, é um dos grandes trunfos do disco.

Raga Nº2 foi o primeiro tema a ser gravado e uma das mais que mais agradou à Frippi e que deverá fazer o mesmo com o ouvinte. O CD ainda traz ótimos climas em "Savana Party", "Happiness is gonna come" e "The fall Blues".

Porém, como todo disco de música instrumental, há uma clara limitação na mídia. A maneira mais fácil de comprá-lo é através do site da Voiceprint.

Aos fãs, Frippi avisa que já está trabalhando em um segundo CD, novamente com a dupla Parahyba e Barros.

é um dos bons lançamentos de 2011 e que merece ser ouvido com atenção.

Ficha técnica

Faixas


01. La Joie De Vivre
02. La Milonga Del Duende
03. Happiness Is Gonna Come
04. Desert Wind
05. Fall Blues
06. Savana Party
07. …Ed É Subito Sera
08. A La Guerre Comme A La Guerre
09. A Little Song 4 U
10. Raga No. 2
11. Eppur Si Muove
12. Senza Titolo

Músicos

Giuseppe Frippi: guitarras, violões live sampling e programação
João Parahyba: bateria, percussão e programação
Celio Barros: baixo elétrico, upright, contrabaixo acústico

Participações

Janja Gomes: Percussão e samples
Giovanni Santhiago Lenti: Percussão adicional
Roberto Araujo: oboé & french horn
Ubaldo Versolato: flauta, sax barítono
Gabriel Levy: accordeão
publicado originalmente no site Mofo

por Rubens Leme

Quando a loja Baratos Afins lançou um selo próprio, muitas bandas tiveram a oportunidade de lançar discos que as grandes gravadoras não aceitavam por não entenderem a proposta sonora, ou por pura ignorância. Uma delas foi o Smack, talvez a banda mais inovadora e "difícil" do selo. O quarteto - e depois trio - lançou dois discos nos anos 80, até se reagruparem, no Século XXI e lançarem um EP, com cinco músicas. O Smack é outra banda que merece ser conhecida e ouvida.


(Sandra Coutinho, Thomas Pappon e Pamps, na época do lançamento de Noite e Dia)

E para falar da banda usei do mesmo expediente que usei com os Voluntários: entrevistei
três integrantes, especificamente, o letrista, cantor e guitarrista Pamps, a baixista Sandra Coutinho e o baterista Thomas  Pappon.

(Pamps: crédito:
Ruy Mendes)

Sérgio Pamplona, ou Pamps, como é conhecido, já tinha uma
muita experiência antes de formar o Smack.

Nascido em São Paulo, Pamps cresceu ouvindo o que seus pais tocavam em casa: Tommy Dorsey, Louis Armstrong, Gene Krupa, Elvis Presley, Frank Sinatra, Bing Crosby, Paul Anka, Ella Fitzgerald, João Gilberto, Elizeth Cardoso, Angela Maria.

Mais velho, resolveu dar os primeiros passos como músico: "participei de um grupo que acompanhava uma companhia de dança chamada CQD. Tocava baixo. Depois, a convite do Arrigo Barnabé formei um grupo pra acompanhar a Eliete Negreiros: Sandra Coutinho no teclado, Jean Trad na guitarra, Maurício Zidoy na bateria, eu no baixo (agora já fretless, pois precisei acompanhar a sonoridade que o falecido Tavinho Fialho imprimiu na gravação do disco). Depois fui chamado pelo Itamar Assumpção pra tocar baixo no Isca de Polícia."

Pamps queria montar sua própria banda e a ideia amadureceu após um encontro com Sandra Coutinho e Edgard Scandurra: "Eu acompanhava
de perto as Mercenárias. Era meio que vizinho da Sandra. Assim, conheci o Edgard. Eu tinha umas músicas em andamento; boa parte das que constam do Ao Vivo no Mosh. Um dia a Sandra e o Edgard sugeriram que eu mostrasse os temas.
Começamos a desenvolver os arranjos, com o Edgard fazendo, por vezes, a bateria. Então, num belo dia, apareceu o Thomas na casa da Sandra e o levamos até a minha casa pra mostrar o som. Ele fechou todas e saiu maravilhado com o que tava rolando. Saiu dos Voluntários e se dedicou ao Smack. Não havia proposta alguma."

Thomas realmente havia se entusiasmado com o grupo: "fui o último a entrar no grupo, não sei se ele já existia antes, creio que não. Sei que os outros três, o Pamps, a Sandra e o Edgard ficaram um bom tempo testando outros bateristas, sem sucesso. Numa tarde de domingo, acho em 1983, eu estava de bobeira
na casa da Ana, guitarrista das Mercenárias, e os três estavam lá. Eles me convidaram para fazer um som - acho que era um teste. Deu super certo, foi uma química mágica. As músicas estavam praticamente prontas, só que sem bateria. Imediatamente me convidaram para entrar na banda."

(Foto da contra-capa do primeiro disco, Ao Vivo no Mosh. Crédito: Renato Mascaro)

O entusiamo de Pappon foi tão grande e realmente deixou o Voluntários, como disse Pamps: "quando entrei no Smack só tocava com os Voluntários (não avia ainda montado o Fellini). Nunca foi um grande problema tocar
nas duas bandas. Não faziamos muitos shows na época. Dava para ensaiar com os dois grupos, mesmo porque a gente ensaiava na casa do Miguel (no caso dos Voluntarios), e na casa do Pamps (no caso do Smack). Só depois de maio de 84, quando pintou o Fellini, é que a coisa começou a complicar para mim. Eu tinha emprego (sempre tive, a música era hobby) e aí realmente não dava mais."

Sandra achava fácil conciliar as Mercenárias e o Smack: "era tranquilo. As Mercenárias não tinham tanta demanda de shows."

As influências básicas do Smack eram variadas: iam dos pós-punk do Gang of Four, Talking Heads, Devo, The Jam e passavam por Jimi Hendrix, Luis Melodia, Jards Macalé, Mutantes, etc...

Pamps se lembra que a sintonia entre os quatro músicos era enorme: "ninguém dizia ao outro o que fazer. Simplesmente rolava."

(O Smack toca no projeto 'Rota 86', em um Centro Cultural Vergueiro, absolutamente lotado. Crédito: Luiz Stavalo)

Já que a química era imensa por que não gravar um disco "ao vivo no estúdio"? Assim, o quarteto resolveu levar a ideia adiante.

Segundo Pamps, "sempre gostei da ideia de gravar ao vivo em estúdio (via Talking Heads). Como a grana era curta, decidimos fazer uma sessão de várias horas passando o repertório todo várias vezes para depois escolher os melhores takes. Chamamos alguns amigos pra participarem da gravação (aplausos, assobios,
u-hus, etc..). O Edgard e eu fizemos uma outra sessão à parte para recolocar alguns vocais, pois no dia da gravação estávamos gripados..."


Pappon dá mais detalhes: "o disco foi gravado ao vivo por razões de grana mesmo. A gente queria gravar num dia apenas, começamos às 9 da manhã (lembro que foi duro pro Pamps acordar cedo). Tocamos o repertório ao vivo duas vezes no estúdio e depois escolhemos a melhor versão de cada música para mixar. Achamos uma boa ideia convidar alguns amigos para dar mais 'clima' pra coisa toda. Devia ter umas 10 ou 15 pessoas. Lembro que o Nasi, a Bia Abramo
e a Neusinha estavam lá."
"Gravar o LP foi fácil e divertido",
relembra Sandra.

Thomas, no entanto, não ficou muito satisfeito com o resultado obtido: "tenho uma fita de ensaio, gravada toscamente, que é um desbunde. O Ao Vivo no Mosh não faz justiça a esse som, foi mal produzido, apenas dá uma ideia do som que a gente fazia."

Lançado em 1985, pela Baratos Afins, Ao Vivo no Mosh, se tornou um clássico independente brasileiro.

Lado A

1. Fora Daqui
2. Fora Daqui II
3. Onde Li
4. Clone
5. Desespero Juvenil
6. N. 4

Lado B

1. 16 Horas e Pouco
2. Limite Eternidade
3. Faça Umas Compras
4. Chance De Fuga
5. Mediocridade Afinal

(Pamps, Sandra e Thomas - agachado. Crédito: Vitché)

O disco ganhou elogios da crítica brasileira e também da internacional e alguns shows promocionais, na capital paulista, no Lira Paulistana, no Cais, na Tiffon, além de um show em Rio Claro, dividindo a bilheteria com as Mercenárias e os Ratos de Porão.

O problema é que Edgard Scandurra começava a ganhar destaque nacional com o Ira!, como guitarrista e compositor e logo precisou desistir do grupo, abrindo mão até de outros projetos.

"Edgard vivia tendo compromissos com o Ira!, Gang 90, Ultraje, KGB, etc... Ele vivia de música e shos e apostou as fichas no Ira!. Continuamos como trio, e a coisa até que deu certo. Lembro de duas noites no Lira Paulistana, como trio, que foram muito boas, talvez os melhores shows do Smack", relata Pappon, que também
dividia seu tempo com o Fellini, enquanto Sandra também era líder das Mercernárias. Apenas Pamps era "exclusivo"
do Smack.

Se, ao vivo, a banda estava coesa e forte, a inevitável saída de Edgard deixou uma lacuna imensa. Isso levou o som do grupo para uma nova direção: mais pesado, denso, bem diferente do álbum de estréia. Pamps, Pappon e Sandra, porém, seguiam dispostos a encarar
o novo desafio.

"Decidimos tocar em frente. O ano era outro, a vida também era mais densa, mais pesada. Creio que isso se traduziu no clima das minhas composições. Acho que 'Just Reality' é a mais densa. Muito lenta, quase pra trás. A letra do Thomas ajudou bastante. É difícil tocar naquele andamento...", se lembra Pamps.

Assim, nascia o segundo disco do grupo, Noite e Dia, com produção de Luiz Carlos Calanca, gravado entre os meses de março e abril de 1986.

Ao contrário do LP anterior, Noite e Dia foi inteiramente financiado pela Baratos Afins, com uma melhor estrutura.

"Esse foi o primeiro disco do qual participei em que as gravações foram bancadas pela gravadora, no caso, a Baratos Afins. Gravavamos à noite no Vice-Versa, em Pinheiros. O Edgard participou como convidado especial, em quatro músicas", explica Pappon.

Noite e Dia foi editado em 1986, com as seguintes músicas:

Lado 1

01. Abertura
02. Pequena Dissonância
03. Não Enlouqueça
04. Cavalos
05. Rádio Smack

Lado 2

01. Sete Nomes
02. Desafinado
03. Just Reality
04. Noite e Dia

O sucesso comercial, no entanto, não aparecia e problemas pessoais e a falta de divulgação culminaram com o fim do Smack:

"O Smack foi definhando. Não consigo lembrar por que paramos de ensaiar Acho que foi por falta de tempo e procrastinação do Pamps", confessa Pappon. Para Pamps, a "química havia se esgotado".

Vale ressaltar que a Baratos Afins lançou uma edição 2 em 1, com os dois LPs do grupo, em CD.

Após o fim, a banda até fez uma apresentação mais para matar as saudades, em 1996, no Aeroanta, em São Paulo.

Thomas havia se mudado para a Inglaterra, mas Edgard, Sandra e Pamps se encontravam muitas vezes e às vezes, tocavam juntos.

Em 2005, os três resolveram se reunir para algumas apresentações, com Pitchu Ferraz, na bateria.

A tal "química" voltou, a ponto de lançarem um novo trabalho, o EP Smack 3, com cinco músicas, em 2008, pela gravadora Midsummer Madness, para a alegria de Pamps: "o grupo foi reativado em 2008 para a gravação do EP."

Após a gravação, a banda fez alguns shows, com a baterista Pitchu Ferraz substituindo Thomas Pappon: "a Pitchu substitui o Pappon de uma maneira diversa e surpreendente!", garante o cantor.

Sandra adorou trabalhar novamente com os rapazes, embora confesse que tenha feito pouco: "são composições do Pamps com Edgard e uma tem letra do Arnaldo. Eles eram vizinhos e amiguinhos! Se
cruzavam e foram criando o novo repertório. Eu vim e fiz a linha do baixo. Logo, foi o momento deles!"

Gravado nos Studio Paris, Cabeça de Estopa e masterizado por Walter Lima, no Mosh Studios, Smack 3 traz as seguintes composições, todas inéditas:

01. "Se você" (Edgard Scandurra / letra: Arnaldo Antunes)
02. "Qu’est ce que tu pense" (música e letra: Pamps)
03. " Excomungado" (música e letra: Pamps)
04. "Tempo tempo tempo" (música e letra: Edgard
Scandurra)
05. " Verlan" (música e letra: Pamps)

Nada desanima Pamps. Apesar de tudo, ele acha que vale a pena insistir, apesar da falta de uma divulgação decente. Pamps acha que o problema não é a falta de interesse do público, mas um respeito maior das casas noturnas com os músicos: "o interesse pelo rock e suas derivações permanece. O problema são os locais. Casas noturnas onde se ganha por bilheteria, mas só se entra em cena lá pelas duas da matina. Não é fácil!"

O ânimo é tamanho a ponto de sonhar em lançar outro EP de músicas inéditas. Pois que venha um novo trabalho!

Discografia

Ao Vivo no Mosh (1985)
Noite e Dia (1986)
Smack 3(EP, 2008)

Voluntários da Pátria

publicado originalmente no site Mofo

por Rubens Leme

No começo da década de 80, a loja Baratos Afins deu uma grande força às bandas independentes ao montar o selo de mesmo nome. Se as bandas não venderam muito, ao menos foram importantes para abrir espaços para muita gente talentosa. Uma dessas bandas - que teve apenas um LP gravado - foi o Voluntários.  Liderado pelo guitarrista Miguel Barella, o Voluntários teve em sua formação Guilherme Isnard (depois vocalista do Zero), Thomas Pappon (Fellini e Smack), Nasi (Nazi, à época) e Ricardo Gaspa (ambos, futuros integrantes do Ira!). Com uma sonoridade mais definida e mais trabalhada que os demais grupos do selo, o Voluntários da Pátria deixou um belo registro e que merece ser resgatado.


(Primeira formação dos Voluntários: da esquerda para a direita: MinhoK, Guilherme Isnard, Miguel Barella e Thomas Pappon. Faltou o baixista Maurício, futuro integrante do Ultraje a Rigor. Crédito da foto: Luís Crispino.)

Para contar a história do grupo, entrevistei três integrantes da banda: os guitarristas Miguel Barella, Giuseppe Frippi e o baterista Thomas Pappon. Eles falaram da vida, das gravações e das diversas formações do grupo. As fotos que ilustram a matéria foram todas retiradas do site sacimusic de Miguel Barella, com os devidos créditos.

Após a explosões do punk e da new wave no mundo, que mostrou que qualquer jovem poderia formar uma banda, muitos sonhavam em formar uma banda. E como qualquer outro grupo, nasceu os Voluntários da Pátria.

O grupo nasceu em 1982, após um encontro entre o guitarrista Miguel Barella (foto, em instantâneo de Jac Leirner) e o baterista Thomas Pappon. Miguel, paulistano da capital, tinha crescido como qualquer garoto da sua idade, ouvindo Beatles, Rolling Stones, Jovem Guarda e foi, aos poucos, se aproximando mais dos progressivos ingleses e o jazz rock feito por Miles Davis, Mahavishnu, Chick Corea e pelo grupos do selo ECM.

Miguel Barella já havia tocado no Agentss, de Kodiak Bachine, que durou pouco, mas deixou um interessante legado: "O Agentss foi o projeto de 3 cabeças bastante diferentes: Kodiak, Eduardo (Amarante, futuro integrante do Zero) e eu. Deixamos um legado pequeno, mas consistente: 2 singles e 5 shows. Fo uma época interessante em São Paulo. Tínhamos poucos lugares para tocar, mas pessoas muito antenadas. Até hoje recebo e-mails de foram pedindo informações, autorzação para remixes etc..."

Assim, após o fim do Agentss, nascia o Voluntários. Ao longo dos anos, a banda apresentou três formações:

Formação 1

Guilherme Isnard (vocal)
Miguel Barella (guitarra)
MinhoK (guitarra)
Maurício (baixo)
Thomas Pappon (bateria)

Formação 2

Nazi (vocal)
Miguel Barella (guitarra)
Giuseppe Lenti (guitarra)
Ricardo Gaspa (baixo)
Thomas Pappon (bateria)

Formação 3

Paulo H (vocal)
Miguel Barella (guitarra)
Giuseppe Lenti (guitarra)
AkiraS (baixo)
EdsonX (bateria)

(Segunda formação dos Voluntários. Em pé; Miguel Barella e Thomas Pappon. Sentados; Nazi, Ricardo Gaspa e Giuseppe Frippi. Crédito da foto: J. R Duran.)

O começo foi difícil...

Segundo Thomas Pappon, a banda surgiu meio que por "acidente": "fundei os Voluntários com o Miguel Barella, que me ligou do nada em algum momento no inicio de 1982 perguntando se eu queria tocar na Gang 90. Ele namorava uma menina que tinha um irmão, com quem eu tocava numa banda. Essa namorada tinha mencionado para ele que o irmão tocava com um cara que 'gostava de new wave', e por isso ele me ligou. Topei, fomos ensaiar com a Gang 90, mas não durou muito, fui dispensado poucas semanas depois (aparentemente o Julio Barroso queria a volta do Gigante Brazil). Mas fiz amizade com o Miguel e ficamos com o plano de fazer algo juntos. No dia 7 de setembro de 1982 (a data acabou infleunciando a escolha do nome), fizemos um ensaio. O Miguel levou o Jacky (R.H. Jackson, baixo) e eu levei o Minho K (Celso Pucci, guitarra). Foi um barato, assim nasceu a banda.

Barella se lembra bem do começo: "uma jam com o Jackie o Thomas e eu serviu para despertar as afinidades musicais entre... o Thomas e eu. O Thomas foi para a Alemanha e ficou por isso mesmo. Antes do Thomas ir para a Alemanha ensaiamos com a Gang 90. Nessa época a Gang ficou reduzidíssima (sairam todos os músicos) e o Julio pediu que eu apresentasse gente nova. Os ensaios eram no apartamento da May East, na Praça da República, com a Sandra no piano Fender, o Thomas na bateria eu na guitarra e a Claudia Niemayer no baixo. O Julio ficava observando e soltava uns comentários do tipo: 'toca como o Arto; encarna um James White', etc.Lembro que o Julio ficou indignado com o Thomas quando ele falou XTC em vez de EKSTICI. Por enquanto, ainda não tinha Voluntários da Pátria nem embrião da banda. Toquei com Gang 90 no Victória Club com a Sandra no piano, Skowa no baixo e Victor Leite na batera. Nessa noite o Ira abriu para a Gang. A Sandra e eu continuamos a conversar sobre as possibilidades de uma banda etc...e o ponto em comum era "Thomas na batera", mas ele estava na Alemanha tentando uma bolsa para estudar cinema.

Não sei bem como, mas um dia a Sandra diz que encontrou o Thomas na rua e um dia ele, mais MinhoK, estavam fazendo um som no porão. O Jackie estava lá com o stick mas logo depois voltou para Nova Iorque. O MinhoK apresentou o riff que acabou virando "Cadê o Socialismo".

Barella discorda apenas da origem do nome: "um dia o MinhoK estava divagando sobre os nomes e disse "hoje passei pela Rua Voluntários da Pátria". Na sequência falei que era um bom nome para o grupo. presentamos para o Thomas e ele também gostou. Uma sugestão anterior, dada pelo Thomas, era Gdansk (copiado de Warsaw, primeiro nome do Joy Division). Os primeiros tempos tiveram aquele típico entra-e-sai de membros: "a Sandra e a Marcinha apareceram em vários ensaios mas a poesia teutônica das letras do Thomas inibia quem tinha que interpretá-las.A Sandra já falava em trocar o piano pelo baixo, eu queria dar uma chance, mas fui voto vencido. Finalmente apareceu o primeiro baixista: Rodrigo. O Thomas conhecia ele da USP e eu porque era irmão de uma antiga namorada. Ele, definitivamente, não falava o nosso dialeto. A referencia mais próxima era o Police que tocava no rádio. Mesmo assim insistimos um pouco. O próximo passo era conseguir um vocalista!

Sábado após o ensaio, o Thomas, MinhoK e eu marcamos encontro no Rose BomBom. Era a primeira fase do Rose, montado num lugar que foi a primeira loja de discos do gênero punk-new-wave que conheci em SP – fora as Galerias que eram mais genéricas. O dono da loja era um americano de nome Bob, amigo do Kodiak.

Lá pelas tantas encontramos o Antonio Bivar, que eu conhecia através do Julio Barroso e da Gang90, e começamos a conversar... numa  certa altura do papo alguém perguntou se ele gostaria de  cantar na nova banda que se chamava Voluntários da Pátria etc. O Bivar disse ser muito tímido para cantar, mas não descartou totalmente o convite.

Alguns dias depois recebi um telefonama da Paula Lemos dizendo que um amigo dela tinha encontrado a Monica Figueiredo (e provavelmente o Bivar) saindo do Rose. Papo vai, papo vem e a Paula disse que ia me ligar  um amigo dela que soube pela Monica Figueiredo que o Voluntários procurava um vocalista. O nome desse amigo era Guilherme Isnard." Pronto, o time estava completo: Isnard, Mauricio, Pappon, MinhoK e eu. Ensaios, ensaios, ensaios, faíscas. O ar ficava carregado com uma tensão evidente entre as aspirações do Guilherme e os objetivos da banda."

(Com Frippi - segurando o copo - nasce a segunda formação do grupo. Crédito da foto: Corina Crawford.)

MinhoK acabou saindo e Giuseppe Frippi acabou assumindo a outra guitarra. Italiano nascido em Alessandra, região do Piemonte, Giuseppe Lenti viveu em vários países. Seu pai era um executivo de uma multinacional e viveu em vários países.

Seu amor à música cresceu na Argentina:"foi onde dei meus primeiros passos na guitarra....A cena lá era fervilhante: muitas bandas de blues e Rock tocavam com frequência e vendo gente como Pappo, Cláudio Gabis (aqui tocou um certo tempo na banda do Nei Matogrosso logo depois da separação dos S&M), Luís Alberto Spinetta, Edelmiro Molinari acabei aprimorando meu conhecimento do instrumento (fora, obviamente, ouvir muito Hendrix e Santana, que eram os guitarristas 'internacionais' que eu mais curtia na época) .... Cheguei no Brasil em 74, com 16 anos."

Logo que chegou ao Brasil, conheceu Miguel: "eu tinha formado uma anda com um pessoal da minha escola que se apresentava nos festivais do Colégio Objetivo e o Miguel também chegou a tocar nesses eventos. Começamos a trocar idéias durante as passagens de som e acabamos ficando muito amigos. Inclusive porque acabei montando uma nova banda com músicos que ele me apresentou. Tempo depois ele me convidou a me unir aos Voluntários, já que o MinhoK (o outro guitarrista) tinha abandonado a banda... Sua grande paixão na guitarra, depois de Hendrix, era Robert Fripp, líder do King Crimson e acabou sendo conhecido como Frippi, com "i" no final. Para Pappon, a segunda era a mais consistente, tanto que gravou o único LP do grupo: "A primeira era com o Minho K, o Maurício (do Ultraje) no baixo e o Guilherme Isnard nos vocais. A outra com o Frippi, o Gaspa e o Nasi. Os nomes falam por si. A vantagem da segunda é que havia uma trama de guitarras mais definida e resolvida, o baixo era mais presente. Mas a grande diferença estava nos cantores. Dois estilos totalmente diferentes. De um lado, Brian Ferry e do outro - sei lá - Bono, no início de carreira. New Romantic x Clash. Hoje acho que o Isnard combinava melhor com o som e a imagem da banda. O Nasi estava por demais comprometido com o estilo de rebeldia adolescente do Ira!, o que não combinava muito com os Voluntários - nem com letras como 'O Homem Que Eu Amo'.

(Nazi em um show dos Voluntários. Crédito: Simone Lima)

Para Barella, a grande preocupação sonora da banda era trabalhar muito os arranjos; de forma interativa e fragmentada. "Tudo era dividido em partes que se juntavam como quebra cabeças. Um instrumental forte com resultado 'pop'" E para que essa concepção desse certo era vital a presença de Giuseppe Frippi, já que Barella admite que a primeira formação deixava um pouco a desejar.

"A primeira tinha o o Guilherme Isnard como vocalista e o MinhoK na outra guitarra; Thomas na bateria. Estavamos experimentando fórmulas. Não era muito boa ao vivo. A segunda foi a que gravou o LP, muito boa ao vivo. O Giuseppe e eu limpamos e consolidamos os arranjos das guitarras. O Thomas fez o mesmo com a bateria."

Os integrantes traziam diversas influências sonoras: The Cure, Gang of Four, Joy Division, League of Gentleman, Bill Nelson, XTC, King Crimson (especialmente o disco Discipline), além dos grupos de Nova York, como Television e Talking Heads.

O único disco editado do grupo, em 1984, saiu pelas Baratos Afins, com um longo e explicativo texto na contra-capa:

Grupo paulista formado em setembro de 1982. Realizou uma série de shows no ano de 1983. Tocou no Carbono 14, Rose Bom Bom, Lira Paulistana, Clash, Sesc Pompéia e Napalm (São Paulo), Noites Cariocas e Circo Voador (Rio de Janeiro).

Os Voluntários da Pátria não se apresentam ao vivo desde o início de 1984 (exceção feita ao show pelas Diretas-Já no Centro Cultural São Paulo). Durante este tempo, o grupo se dedicou à criação e aperfeiçoamento de músicas para a composição do grupo desde o seu surgimento. O objetivo inicial deste trabalho era o de registrar este material em um LP.

O papel do disco seria o de reproduzir fielmente os sons produzidos pelo grupo. A “fidelidade” em questão se refere ao som produzido ao vivo pelos Voluntários da Pátria, com os timbres de seus instrumentos equalizados de acordo com sua própria concepção estética. E o primeiro passo na tentativa de ir de encontro a este critério, foi de abandonar toda e qualquer perspectiva de lançar o LP por uma gravadora. Tinha-se descoberto que as gravadoras são incapazes de reconhecer e avaliar trabalhos que fogem dos padrões derivados de modismos passageiros. Não existe interesse nem iniciativa no sentido de se fazer um investimento a longo prazo, dirigido a um novo mercado, um mercado sólido sustentado por uma base real: a relação do consumidor criterioso com a música criteriosa, ou seja, uma relação onde os envolvidos partem para a discussão sobre determinado trabalho, situando-o em determinado contexto e resguardando ou não seu papel histórico de obra de arte. Tinha-se descoberto também, que os produtores de disco daqui são incapazes de situar qualquer tipo de música feita por jovens, em outro universo que não seja o das FMs e AMs comerciais. Isto revela sua desinformação: ignoram, entre outras coisa, o movimento punk, um movimento que praticamente alterou o comportamento do mercado fonográfico a nível mundial, além de ter influenciado toda uma geração de músicos e ouvintes. Os Voluntários da Pátria partiram então para a auto-produção, contando com a ajuda mecência de Luiz Carlos Calanca (Baratos Afins Records). O resultado é um LP com oito faixas instigantes, três das quais censuradas. São oito faixas onde prevalece a originaliade da integração letra/música/arranjo (os Mutantes faziam isso com classe). O LP, situado no marasmo da MPB, merece ser tratado seriamente. O disco foi gravado em julho/84 no Mosh Studio (16 canais), São Paulo, e lançado pelo selo Baratos Afins Discos.

Os Voluntários da Pátria são: Miguel Barella (guitarra, guitarra sintetizada), Giuseppe Frippii (guitarra, guitarra sintetizada), R. Gaspa (baixo), Nazi (vozes) e Thomas Pappon (bateria e vozes de fundo).

Ao ser editado em LP, trazia oito músicas:

Lado A

01. O Homem que eu Amo 02. Iô Iô 03. Um, Dois, Três, Eu te amo 04. Nazi Über Alles

Lado B

01. Marchas 02. Verdades e Mentiras 03. Cadê o Socialismo 04. Terra Devastada

O disco foi editado em CD, com sete faixas bônus, todas ao vivo:

09. Resistência Afegã 10. Iô Iô 11. Verdades e Mentiras 12. Um, Dois, Três, Eu te amo 13. Cadê o Socialismo 14. Fúria Brasileira 15. Marcha

O relançamento em CD, aliás, teve um show comemorativo, em janeiro de 1990 no Aeroanta. A formação para essa apresentação foi: Nazi, Miguel, Giuseppe, Gaspa e Kuki na bateria.

(Foto da banda em 1984 à época da gravação: da esquerda para a direita: Nazi, Thomas, Frippi, Barella e Gaspa. Crédito: Arquivo Pessoal de Miguel Barella.)

Segundo Miguel, "fomos para o melhor estúdio que podíamos pagar (o Mosh) e tudo correu sem surpresas. Os técnicos de som não tinham e menor idéia como conseguir a sonoridade que buscávamos, mas o resultado final ficou razoável."

Thomas conta que eles não tinham a menor expectativa em ver o disco lançado: "a gravação dos Voluntários foi em maio/junho de 84 Nós bancamos as gravações e o (Luiz) Calanca só decidiu lançar algumas semanas depois do trabalho pronto, ou seja, ninguém sabia (enquanto estávamos gravando) sequer se o disco seria lançado. Naquela época as bandas nao tinham firmeza nem dinheiro e peito para fazer tudo sozinho até o fim. Ainda bem que existia a Baratos Afins."

Frippi se lembra de uma história divertida: !o Nasi quebrou o queixo pouco antes de gravar as vozes num acidente de carro e tivemos que esperar que ficasse "bom" para completar o processo (que - evidentemente - ficou certo tempo em standby...)." No entanto, o Voluntários era uma banda sem grande preocupação comercial. "Era um veículo de expressão. Jamais pensamos em um grande selo", garante Barella. Frippi, no entanto, gostaria de ter tido uma chance "desde que este não quisesse modificar o conceito estético da banda.'" Por isso mesmo, as apresentações eram poucas: "Eu e o Giuseppe tinhamos empregos fixos, então os ensaios eram à noite ou no fim de semana. Shows só no fim de semana". Thomas recorda desses ensaios: "eram em Indianópolis, longe pacas da minha casa."

As dificuldades em se apresentar e sem grandes perspectivas foram a deixa para que Thomas saísse do grupo, afinal ele já integrava o Fellini e o Smack. "Foi exatamente por isso (estar em três grupos ao mesmo tempo) que acabei saindo da banda. Não dava para tocar em três bandas, tive que deixar uma delas. Optei por sair dos Voluntários. Os Voluntários eram algo novo na época. O pessoal gostava, os músicos eram bons. Mas a opção de sair não foi difícil de tomar. O Smack era uma superbanda, a gente fazia um puta som, rolava uma química muito forte ali. O Fellini eu amava, sabia que a gente tava fazendo algo muito legal."

(Última formação dos Voluntários: em pé, da esquerda para a direita: o vocalista Paulo Horácio, o baterista Edson X, o baixista Akira S e Giuseppe Frippi. Sentado: Miguel Barella. Crédito da foto: Ruy Mendes.)

O grupo ainda resistiu com uma terceira formação, mas durou apenas até fevereiro de 1986, quando fizeram o último show, para o programa Mixto Quente, da Rede Globo. Após isso, Miguel e Giuseppe fizeram dois discos sob o nome de Alvos Móveis - Alvos Móveis e Slow Link.

Barella nunca deixou a música de lado: "Nunca parei de tocar. Desde 2000 estou envolvido com improvisação. Tenho um trio que chama LCD e o duo Rohrer-Barella. Gravamos várias coisas que foram lançadas fora do Brasil, tocamos no LEM, em Barcelona. Em 2010, toquei em Shanghai com músicos chineses..." Barella se diz "apaixonado e completamente absorvido, no momento" por Kaki King.

Frippi recentemente lançou um disco solo pela Voiceprint, Desert Wind. Thomas passou pelo Fellini, com vários discos, Smack e The Gilbertos. Nazi e Gaspa ficaram famosos com o Ira! Akira S liderou o combo Akira S e as Garotas que Erraram. Guilherme Isnard foi vocalista do Zero.

As perspectivas de se reunirem são poucas e não animam muito, afinal anda muito difcíl tocar ao vivo. Ou nas próprias palavras de Pappon: "tudo continua tosco e dificil para bandas independentes. Mas hoje é pior, porque me parece que não há mais interesse em rock. Na época, pelo menos, todo mundo tinha curiosidade, e a imprensa e as radios davam uma puta força." Espero que tenham gostado. Um abraço e até a próxima coluna.

The Orchid Highway - The Orchid Highway

por Rubens Leme

postado originalmente no site Mofo

Seis anos atrás, recebi uma coletânea da Bongo Beat chamada Driving in the Rain 3 AM. Songs to get lost with, que resenhei e nela havia uma canção bacana chamada "Opiate" da banda canadense Orchid Highway.

Acabei fazendo uma entrevista com o líder, Rory McDonald e fiquei esperando que me mandassem o segundo CD do grupo - ou o primeiro, já que o anterior era um EP de quatro músicas (Fourplay) de 1997! - gravado em 2008.

O som da banda é diretamente tirado dos anos 60: Beatles, Floyd, fase Syd Barrett, Britpop, XTC, com ligações fortes com o Supergrass e Kula Shaker, tudo muito bem produzido, ótimos arranjos e melodias. O porquê de demorarem 11 anos para fazer um novo disco é um mistério.

A ajuda do produtor Steven Drake foi fudamental para dar corpo ao som. Para Rory, ele é um verdadeiro gênio e que merecia uma fama maior. Concordo.

O disco abre com "Sofa Surfer Girl" - há um vídeo no site oficial do grupo -, uma bela melodia pop. "Opiate", a que me cativou, anos antes, continua sendo ainda uma grande música ordenada por órgãos, guitarras e um vocal bacana.

Igualmente interessante é "Ballad in Plain E" (uma brincadeira, talvez, com "Ballad in Plain D", de Bob Dylan").

O Orchid Highway possui mais de 70 canções, segundo o próprio Rory, mas só 10 foram escolhidas para o disco. É torcer para que as outras 60 vejam a luz do dia urgentemente!

Faixas

1. Sofa Surfer Girl
2. Medicine Tree
3. Let's Stay In Instead
4. Next World
5. Ballad On Plain E
6. Opiate
7. Pop Tart Girl
8. Tea With Shandra
9. Time For A Change
10. Legion Hall